segunda-feira, 19 de agosto de 2019

O poder, o mal, a glória do arquivo



A existência do arquivo, a sua forma e seu impacto destrutível, de forma a não compreender o arquivo como estático e nem relacionado à busca da memória ou reduzido ao experimento de uma escavação a um outro tempo. E sim, numa autoridade postulada, junto de seu impacto nos revisionismos, na historiografia. 


A psicanálise, para Derrida, deveria provocar uma problemática na arquivologia, pois a comunicação e o suporte virtual ou não para o arquivo não podem ser imutáveis e são constituídos a partir de uma valor do presente. Para além disso, com efeito para debates sobre o holocausto judaico em que se juntam os conceitos de história, poder e nacionalismo como a evocação de um sintoma que seria o desejo de memória comum para o momento, como evidencia a frase apaixonada de A. Camus em Cartas a um amigo alemão “Salvai o que ainda pode ser salvo, simplesmente para que o futuro continue a ser possível!”


Ao se dissecar a palavra arquivo é possível chegar em Arkhê, evocando o princípio da natureza histórica, física e ontológica da base de autoridade da palavra. Os arcontes, aqueles que estavam no comando, não só responsáveis pelo depósito, mas também por interpretar os arquivos, diziam a lei e também guardavam. Obtendo, portanto, a institucionalização do arquivo. O que não significa ser secreto ou não, mas marca uma passagem do privado ao público, na qual concentra uma função de consignação como um ato de reunir, agrupar signos.


“Em qualquer lugar [...] em que se tente repensar o lugar e a lei segundo os quais se institui o arcôntico; em qualquer lugar onde se interrogue ou conteste direta ou indiretamente este princípio arcôntico , sua autoridade, seus títulos e genealogia, o direito que faz vigorar, a legalidade ou a legitimidade que dele dependem; em qualquer lugar onde o secreto e o heterogêneo venham a ameaçar a própria possibilidade de consignação, certamente não faltarão graves consequências, tanto para uma teoria do arquivo, como para sua realização institucional.”(DERRIDA, 2001)


A institucionalização do arquivo acompanha leis e direitos que podem pôr ou supor limites a história no seu poder desconstrutivo. Em casos em que haja limites, distinções, desconstruções, não há a garantia de uma organização, uma ordem do arquivo. A aparente consciência das escolhas arquivísticas, assumem um compromisso que se manifesta na permanência da ordem e essa ordem criada pelos arquivos incorpora os valores da sociedade. É aqui que se poderia indagar se a demarcação é realmente consciente, visto que a permanência desse valor é praticamente absoluta. O arquivo recalcado é marcado por uma não-democracia do estado, é possível concluir que a criação destes conceitos estão submissos ao poder do estado sobre o arquivo, sobre o arquivamento e sobre a historiografia.


Inclusive, como Sonia Combe afirma: não há uma mera coincidência no fato de grande parte dos historiadores franceses serem homens o que marca a existência de uma patriarquívica, uma ordem ou desordem já estabelecida. É o “belo movimento do arquivo” com estratégias de permanência e de eliminação. E nessa dança a mudança dos suportes do arquivo influenciam suas delimitações. O suporte virtual, por exemplo, apresenta um ilusório senso de soberania, no entanto não há nada além de um elo global, o que cria uma proximidade psíquica que pode ser a resposta das perguntas de Derrida: “Que futuro terá a psicanálise na era do correio eletrônico, do cartão telefônico, da multimídia e cd-room?” Pergunta já ultrapassada para os suportes que já se modificaram.

Porém, é por meio de suportes eletrônicos que são demonstrados cada vez mais um bombardeio do sistema de comunicação, causando uma acumulação sem objetivos e finalidades claros. O inconsciente age sobre as determinações e ligações dos signos. E a falta de uma biografia, causam uma história mais anônima e também uma proximidade psíquica que ameaça a fluidez do pensamento e, portanto, da ordem arquivística.














INSPIRAÇÃO:


DERRIDA, Jacques. Mal de Arquivo: uma impressão freudiana.

CAMUS, A. Cartas a um amigo alemão.

Leonardo Ganfolfi.