quarta-feira, 25 de março de 2020

Adília Lopes, na banheira, tomando banho.

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(com seu gato)

Memória para Esther Greenwood

Vou tomar um banho quente
medito no banho
a água deve estar muito quente
tão quente que deves aguentar
com dificuldade
o pé dentro da água
então desces o teu corpo
centímetro a centímetro
até que a água chegue ao pescoço
lembro-me dos tectos
por cima de todas as banheiras
em que estive
lembro-me das texturas dos tectos
das rachas
e das cores
e das lâmpadas
também me lembro das banheiras
nunca me sinto tanto eu mesma
como quando estou dentro de um banho quente
não acredito no batismo
nem nas águas do jordão
nem em nenhuma coisa desse gênero
mas pressinto que para mim
um banho quente
é como a água sagrada
para essas pessoas religiosas
quanto mais tempo permaneço na água quente
mais pura me sinto
e quando me ponho de pé
e me embrulho numa toalha
grande branca macia
sinto-me pura e fresca
como um recém-nascido


Sylvia Plath, na banheira, tomando banho.


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"O espelho sobre a minha cômoda parecia ligeiramente empenado, prateado demais. O rosto ali parecia um reflexo numa obturação de dentista. Pensei em me enfiar nos lençóis e tentar dormir, mas aquilo me atraía tanto quanto enfiar uma carta suja e rabiscada num envelope novo e limpo. Resolvi tomar um banho quente de banheira.

Deve haver um bocado de coisas que um banho quente não cura, mas não conheço muitas delas. Sempre que fico triste pensando que um dia vou morrer, ou perco o sono de tão nervosa, ou estou apaixonada por alguém que não verei por uma semana, me deixo sofrer até certo ponto e então digo: “vou tomar um banho quente”.

Eu medito no banho. A água tem que estar muito quente, tão quente que você mal consegue colocar o pé. Então você vai entrando, centímetro por centímetro, até estar com a água na altura do pescoço.
Lembro do teto que havia sobre cada banheira em que me enfiei. Lembro da textura, das rachaduras, das cores, das manchas de umidade, das luminárias. Lembro também das banheiras: as antigas, com pés em forma de garra; as modernas, com formato de caixão; as mais chiques, de mármore rosa, com vista para tanques de nenúfares. Lembro dos formatos e tamanhos das torneiras e dos diferentes tipos de saboneteira.

Nunca me sinto tão eu mesma como numa banheira de água quente. Fiquei deitada por cerca de uma hora na banheira no décimo sétimo andar daquele hotel exclusivamente para mulheres, bem acima da agitação e do glamour de Nova York, e senti que voltava a me purificar. Eu não acredito em batismo ou nas águas do rio Jordão ou nada do gênero, mas acho que vejo o banho quente do jeito que as pessoas religiosas veem a água benta.

Eu disse a mim mesma: “Doreen está se dissolvendo, Lenny Shepherd está se dissolvendo, Nova York se está dissolvendo, tudo está se dissolvendo e nada mais tem importância. Eu não os conheço, nunca os conheci, e sou muito pura. Toda aquela bebida e aqueles beijos grudentos que testemunhei, e a sujeira que se instalou na minha pele no meu caminho de volta está voltando a ser algo puro”.

Quanto mais tempo eu ficava ali, naquela água clara e quente, mais pura eu me sentia, e quando finalmente saí da banheira e me enrolei numa daquelas toalhas enormes e felpudas de hotel, me senti pura e doce como um bebê."