as épocas da história, são elas: retórica e literatura. Essa última, por conseguinte,
não sendo uma constante através dos tempos, teria surgido em meados do século XIX.
Com o propósito de repensar as acepções literárias, existem hipóteses de que a
literatura não deve ser designada para nada que não tenha sido criado após o seu
surgimento. A denominação de qualquer produção com matriz literária feita antes do
século XIX consistiria numa significação anacrônica e equivocada, alheia às mudanças
históricas, pois se tornaria um objeto de reconcepção que não levaria em consideração
a relação medieval literária com as novas ideias formuladas na idade moderna.
Um exemplo de objeto de reconcepção é a própria ideia de autoria que, quando
medieval, apresenta características passíveis de glosa e emulação, contrapondo o
individualismo criativo do autor, concepção essa que foi criada a partir do século XIX.
Portanto, para produções literárias feitas antes do século XIX é preciso compreender
os preceitos e os contextos em que eram produzidas. Assim, para ilustrar a
compreensão antiga das letras e das humanidades, devem ser estudados alguns dos
autores da história do surgimento da retórica.
A retórica, termo do grego rhêtorikê que significa “arte da palavra”, liga-se à luta
reivindicatória na Sicília. Córax, discípulo do filósofo Empédocles, e Tisías, publicam
uma Arte Oratória, constituída por uma coletânea de preceitos práticos para uso das
pessoas que recorressem à justiça. Assim, é dada a primeira definição de retórica com
origem jurídica e constitui-se rapidamente como objeto de ensino. Córax, desde meados
do século V a. C., já define o plano do discurso oratório em: 1.Exórdio; 2.Narração ou
Ação; 3.Argumentação; 4.Digressão e 5.Epílogo. Portanto, essa primeira retórica é
sintagmática, pois refere-se a elementos que a compõe e a transforma em unidade.
Górgias, interlocutor sofista de Sócrates, submete a prosa ao plano retórico, por meio
dos elogios fúnebres, dando origem ao novo gênero, após o judicial e o deliberativo, o
epidítico. Górgias estabelece uma passagem do verso à prosa, abrindo espaço para
uma perspectiva, não só sintagmática como a de Córax, mas também paradigmática.
Na Grécia, os sofistas, com a idéia de que era possível persuadir a qualquer custo,
foram condenados por Platão, para quem a retórica, arte do λóγος, é filosófica e
psicagógica. Platão reprovava o fato dos sofistas venderem seus préstimos a todas as
causas, opondo-se à retórica, vista como um saber falso (sofística). Em relação à
filosofia propõe, portanto, a dialética.
Os diálogos de Platão que tratam da retórica são Górgias e Fedro, retratam duas,
uma boa e outra ruim. A primeira consiste em escrever qualquer discurso, possui como
objeto a verossimilhança, é a retórica de Górgias a dos sofistas. E a retórica dialética,
que tem como objeto a verdade, a verdadeira retórica para Platão, é psicagógica, afasta
o escrito e busca a interlocução pessoal.
Já Aristóteles revela a dignidade da Retórica como uma boa forma de comunicação, uma
ciência que se ocupa das técnicas de comunicação. E pode ser utilizada em diversos
momentos, considerando a existência de verdades contingentes, ou seja, verdades
dependentes de valores culturais. Aristóteles sistematiza o discurso, dividido em dois
tratados: A Arte Retórica e A Arte Poética, a oposição desses dois sistemas, um retórico
e outro poético, é o que define a retórica Aristotélica.
Quando a retórica se torna technè poética há a fusão entre as artes, ligada a criação da
literatura, que define-se como o bem escrever. Há a implicação de uma estética, não só
da obra, mas também do público. É levada em conta a finalidade do discurso, a catarse.
Quanto ao autor, não havia no texto escrito o valor de autoria e originalidade. Na Idade
Média a cultura é uma axinomia, isto é, um conjunto de artes funcionais, que são
chamadas liberais porque não são para ganhar dinheiro, por oposição às artes manuais,
são linguagens gerais e luxuosas.
A literatura era definida como erudição, ciência, notícia das boas letras. Não havia a
noção de ficção, as letras humanas eram associadas ao studia humanitatis de Cícero,
que englobava os estudos de gramática, retórica, poesia, história e filosofia moral. Cícero
é um orador que fala da arte oratória, profissionaliza a retórica e também é responsável
pelo surgimento da teoria dos três estilos: simples, sublime e médio.
Cícero foi criticado na Rhetorica Sacra, do livro IV da Doutrina Cristã de Santo Agostinho.
Para Santo Agostinho não há regras para a eloquência cristã, pois se deve apenas ser
claro e apegado à verdade. Enquanto que, a retórica de Cícero anuncia o
desenvolvimento da elocução e a fundamentação para a educação humana, isto é, os
studia humanitatis ac litterarum.
A partir do século XVIII, observa-se a divisão entre razão e imaginação. Sendo a razão
atribuída à filosofia e à ciência, enquanto a imaginação somente à arte (no sentido
moderno: manifestação do belo). E assim, a criação da palavra literatura, em uma
reciclagem de seu significado, pois em latim, a palavra littera traduz o grego gramma,
que significa letra do alfabeto. O coletivo litterae, equivalente ao grego grammata,
significa carta e, ou qualquer tipo de obra escrita. A palavra literatura, então, para uma
outra hipótese, nomeia também o estudo dos escritores antigos.
Nas primeiras décadas do século XVIII, Raphael Bluteau afirma que as letras divinas se
referem à sagrada escritura, enquanto que as humanas se referem à concepção
humanitatis de Cícero. Além do mais, no Suplemento ao Vocabulário Português e
Latino, define-se “literatura” como “erudição, ciência, notícia das boas letras”
(BLUTEAU, 1727, p. 562). Assim, é possível notar que até meados dos anos setecentos
os termos “letras” e “literatura” tinham acepções muito semelhantes.
A diluição da oposição entre a Retórica e Poética cessa em virtude de uma noção
transcendente, ao que hoje chamamos de literatura. Apenas na metade do século XVIII é
que se encontram os primeiros usos da palavra. Segundo Vítor Manuel de Aguiar e Silva,
um possível marco inicial seria o texto Recherches philosophiques sur l’origine et la
nature du beau (1751) de Denis Diderot.
A consolidação da noção moderna de literatura, entre os séculos XVIII e a primeira
metade do século XIX, se deu a partir do modo de pensar a humanidade e a história por
meio de rupturas. As histórias, vistas como narrativas desconexas entre si, perduram até
metade dos anos setecentos, quando foram substituídas por história, no singular, para
designar os conjuntos de eventos que constituem a humanidade.
A Revolução Francesa foi crucial para a dissolução da antiga concepção de história e
também da literatura. Uma das primeiras dissoluções que marcam esse período é a
criação de rótulos, como: classicismo, barroco e renascimento para designar períodos
anteriores. Essa rotulação do passado em vista do presente, gera grandes questões,
como: a instabilidade da autoria de uma obra, pois na antiguidade o texto era passível
de imitação, emulação e comentários. Não havia o ideal romântico e moderno de autor
como individualidade criativa, e sim um processo metonímico na seleção de nomes para
autores, como exemplo: Aristóteles e Cícero nomeiam duas disciplinas do trivium,
Aristóteles designa a dialética e Cícero a retórica.
Essa categorização do passado também ocorre na literatura portuguesa, as crônicas ou
cronicões de Fernão Lopes, gênero dito historiográfico misto, é um relato histórico
ficcionalizado. As crônicas possuem mensagens que estão voltadas para a persuasão,
propondo a divulgação e fomento das representações de poder nacionais, dando um
valor ético a rememorações do passado com elementos que demonstram o apoio do
povo, o uso de alegorias e comparações bíblicas em vários registros, elencando que,
além dos conhecimentos retóricos que são testemunhados no estilo e na estética das
crônicas, há também um conhecimento de obras clássicas e cristãs evidentes. O que
permite supor que Fernão Lopes havia um conhecimento considerável de leituras.
Um trecho da Crônica de Dom João I que comprova este conhecimento é o a seguir, em
que Fernão Lopes cita Marco Túlio Cícero um grande escritor romano: “ E assi parece
que o sentio Túlio, quando veo a dizer: ‘Nós nom somos nados a nós meesmos, porque
ua parte de nós tem a terra e outra os parentes’.”(pg.18)
Como cronista oficial da corte e guarda da Torre do Tombo, durante os reinados de D.
João I e D. Duarte, autor das Crônicas de D. Pedro, de D. Fernando e de D. João I.
Supostamente nascido em Lisboa, Fernão Lopes tem sua vida pública documentada a
partir de 1418, data em que foi titulado guarda das escrituras do Tombo.
Com o passar dos séculos a língua é cultivada por meio dos registros escritos, a
sociedade passa a exigir o papel e a produção de texto foi estimulada pelo poder. O
mecenato, termo utilizado para indicar o incentivo às artes e ao exercício de
financiamento de artistas e suas obras era prática comum e Fernão Lopes, como o
responsável por produzir as crônicas dos reinados figura não só a contribuição da sua
obra, mas também da obra como evidência de um poder político e status social. No
entanto, Fernão Lopes não figura como historiador devido ao fato da verossimilhança
de seus relatos serem questionáveis.
Com um crescimento aparente de universidades na Europa e desenvolvimento de uma
sociedade que já não educava somente clérigos, a literatura e a historiografia portuguesa
receberam incentivos quando os monarcas passaram a ser os principais mecenas. Este
processo de relativa laicização fez com que crônicas históricas fossem encomendadas,
com a intenção de registrar grandes feitos, o objetivo era a construção de uma história
portuguesa edificada pela memória.
Em Quadros da Crônica de D. João I, logo no prólogo é apresentada a sua definição de
história como uma verdade ornamentada, honesta e imparcial. O autor argumenta a favor
da imparcialidade, relata os feitos do passado buscando alcançar a confiança e simpatia
de quem o lê.
Os fatos transcritos são para ele como “...verdade, sem outra mestura, leixando no boõs
aqueecimento todo fingido louvor, e nuamente mostrar ao pôboo quaesquer contrairas
cousas da guisa que aveerom.” e o rei, com seus “claros feitos, dignos de grande
renembrança”, próximo à imagem de um deus, assim, a Idade Média se apresenta como
um período revelador dos discursos de grupos dominantes.
Em seu texto, também é utilizado o gênero retórico epidítico, pois recorre a amplificação
dos fatos que já são conhecidos e ao mostrar sua relevância, torna-se ligado à questão
pública e a admiração do momento, de forma a louvar os feitos de Dom João I.
Em “Lisboa defende-se do cêrco” é evidenciada toda a movimentação política, a batalha
do cerco de Lisboa, a qual estava, segundo o cronista, sendo apoiada pela providência
divina.
É descrita desde o recolhimento de alimentos na cidade e também a disposição de seus
muros e torres, evidenciadas pela religiosidade: “Em muitas delas estavam troõs bem
acompanhados de pedras, e bandeiras de Sam Jorge.” E também com a representação
dos cidadãos honrados, dos quais honra não é significada como um princípio que o leva
a ser honrado, e sim como cidadão de boa categoria, burgueses.
Primariamente, Fernão Lopes descreve os muros, os caminhos e localizações das torres;
as disposições das comidas e papel dos homens e mulheres naquele cerco. As
derivações de um comportamento medieval, toda sua caracterização, constrói a
identidade de uma totalidade de práticas e costumes. Os eventos portugueses são
apresentados de forma ordenada, assim, são explorados de maneira a ter seu discurso
mais valorizado, devido ao fato de o cronista elevar sua expressão ao afirmar que ante
será colocada “ a símprez verdade que a afremosentada falsidade.”
Em contrapartida, pode se levar em conta que Fernão, como um vassalo, possui uma
narrativa tendenciosa, pois eleva-se a imagem de Dom João I, sem mencionar outros
pontos de vista.
No início do prólogo Fernão Lopes afirma a existência de outros historiadores: “Esta
mundanal afeiçom fez a alguuns estoriadores que os feitos de Castela com os de
Portugal escreverom[...]”(pg.19) No entanto, não são encontrados outros registros do
mesmo acontecimento. A existência de somente uma crônica em que os feitos de
Dom João I são exaltados atesta uma inverossimilhança em relação a comprovação dos
fatos narrados, por ser uma produção adjacente de um mecenato em que a visibilidade
dos acontecimentos é escolhida por apenas um ângulo.
Todavia, também são evidenciadas as movimentações do povo, não como uma
resistência, mas sim com a função pedagógica e exemplar de atitudes e nacionalismo.
Tendo em vista que a prática escrita e textual não era uma realidade da massa, a
utilização da memória e da oralidade são marcas do gênero. O que não significa que
essas crônicas eram lidas para um grande público de diversos segmentos sociais.
Fernão Lopes expõe o quadro de Lisboa, o qual “desfalecia o leite aaquelas que tiinham
crianças a seus peitos, per mingua de mantiimento” e mesmo com tais ocorrências o rei
levanta o cerco por ter se declarado uma peste “os quaes a Deos por sua mercee
prougue de cedo abreviar doutra guisa, como acerca ouvirees.” O povo português é
colocado como o escolhido sempre a mercê de um destino divino. A crônica evidencia
a palavra de deus como uma grande significação de predestinação do bem e também da
condução do tempo.
São abundantes as figuras retóricas da Retórica Antiga nas crônicas de Fernão Lopes,
com o intuito de instruir e comover, é utilizado o estilo pedestre, pois há no cerne central
da crônica a função pragmática de persuasão. Ao pormenorizar as evidentias, são
relacionados diversos pensamentos a partir de um central, como em:
“Ó! Quantas vezes encomendavom nas missas e preegações que rogassem a
Deos devotamente por o estado da cidade! E, ficados os geolhos, beijando a
terra, braadavom a Deos que lhes acorresse e suas prezes nom eram
compridas! Uũs choravom entre si maldizendo seus dias, queixando-se por que
tanto viviam[...]
Outros se querelavom a seus amigos, dizendo que forom desaventuirada gente,
que se ante nom derom a el-Rei de Castela que cada dia padecer novas
mizquiindades, firmaando-se de todo nas peores cousas que fortuna em esto
podia obrar.
Sabia porém isto o Meestre e os de seu Conselho e eram-lhe doorosas d’ouvir
taes novas; e, veendo estes males, a que acorrer nom podiam, çarravom suas
orelhas ao rumor do pôboo.” (pág. 71)
Nesse pequeno trecho da Crônica, Fernão Lopes primeiro descreve a situação das
pessoas e seus lamentos para concluir no parágrafo seguinte o como se encontrava o
“Meestre” e o quanto era doloroso para ele ver ocorrer no cidade tais acontecimentos.
Configurando-se em uma rica descrição com a função de evidenciar um retrato moral
de D. João I.
Retomando que evidentia, palavra em latim que em português significa evidência, é um
termo utilizado para designar uma das figuras da descriptio, em grego, ekphrasis
(do grego ek, “até o fim” e phrazô, “fazer compreender, mostrar, explicar”).
Quintiliano, coloca a evidentia como artifício da descrição com que o orador faz as
imagens aparecerem, artifício que denomina uma certa facilidade para dar vida à algo.
Para tornar efetiva a evidentia, são utilizadas: descrições pormenorizadas, enumeração,
troca de perspectiva temporal.
Portanto, Fernão Lopes, por meio de técnicas retóricas, faz saltar à vista processos
coletivos de acontecimento em meio à narrativa da regência de Dom João, como também
uma insurreição de Lisboa, em movimentação popular em prol de um Rei, de uma
nacionalidade.
A narrativa cronística dos feitos portugueses, em parte feita por Fernão Lopes foi redigida
por Zurara, o segundo cronista-mor do reino, que celebra os feitos de expansão e
descoberta e depois se debruça em tratar sobre os feitos de duques, condes, grandes
vassalos. E assim, a produção de crônicas com iniciativa régia suscitou o
desenvolvimento da historiografia eclesiástica até D. João III com a Crônica dos Reis de
Portugal de Cristovão Acenheiro, encerrando um ciclo da historiografia portuguesa
expedindo a gloriosa evocação do destino
português para a poesia épica.
