terça-feira, 9 de julho de 2019

Sobre Alumbramento


Uma mulher negra vestida com avental faz tranças no cabelo de uma adolescente também negra com cabelos grandes enrolados para cima, enquanto todos dormem. 
E logo acordam em movimentos descompassados, se trombando, alguns rindo, todos com respiração ofegante e olhar vazio. Tentam impactar com aquelas barrigas que criam vida e aqueles olhos que só veem as testas de quem os enfrenta. 
Quando as luzes apagam, os passos surtem mais efeitos, por que aqueles passos pesados tremem na vulva sentada no chão, com os lábios bem abertos e apoiados. O som é a única coisa que entra. 
De repente em círculo voltam para casa e se deitam, fazem um sexo frágil, se tocam fracamente. 
Uma mulher negra é sugada por esses que fazem sexo, ela grita: meu corpo é visto assim, eu entro na casa branca assim e saio. E ela realmente sai 
entrando numa fresta escura que não se pode ver onde vai dar. 
Um pó branco é sugado por narizes brancos lá em cima, enquanto reafirmamos nossa resistência, o lugar do avental, do quarto, do meu texto na carta para o amigo. Subverte em um corpo andrógino que não é nu. Nunca poderá ser nu. Um pó cinza é sugado de corpos negros lá em baixo, enquanto olhamos o reflexo da nossa existência em sangue. Eles se molham na religião, olham na testa de quem os enfrenta e morrem.
O corpo é tanto, que é capaz de ser um muro. Um corpo é tanto que é nada. 
Sentada em vidro, a visão é cortada. Facas que corroem toda experiência dilacerada em uma pipa irreconhecível no céu, uma nuvem que não diz nada, um texto que coloca sua cabeça baixa, sua lombar para dentro, um músculo fraco nada anestésico em momentos de dor. Uma mente que balança dentro do crânio e não vai além do aristoteles, por osmose você associa todos aqueles cânones, já dentro de você, você nasceu e eles já estavam dentro.
Morreram, mas te olham na fotografia, vão nos seus sonhos, te dão filhos e conselhos. Se materializam na escultura, um corpo muro-nada. Uma réplica grega, latina, guarani, da bíblia, do alcorão, dos orixás. Subverte em um corpo andrógino que não é nu. Nunca poderá ser nu.

Resenha: Idade Média, Idade dos Homens de G. Duby em correlação com as Cartas Portuguesas de Mariana Alcoforado


    O livro Idade Média, Idade dos Homens reúne ensaios que permeiam as seguintes questões: o que era a mulher nos relatos medievos e quais as relações e circunstâncias diversas para que a Idade Média tenha sido comumente masculina. George Duby, autor do livro e grande historiador francês se debruça sobre o amor na Idade Média de maneira ensaística em busca de uma renovação dos estudos históricos, apostando na relatividade dos fatos rumo a uma história que seja problematizadora e crítica. 
Ressalta-se, nesta resenha, os ensaios da primeira parte do livro de G. Duby intitulado “Do Amor e do Casamento”, do qual foi possível estabelecer relações com As Cartas Portuguesas de Mariana Alcoforado, publicadas anonimamente em 1669, que evidenciam o comportamento feminino problematizado pela misteriosa autoria e não somente isso, mas também pela configuração espacial do livro, visto que, mesmo intitulado como português, fora primeiramente publicado na França. No entanto, as relações de amor estabelecidas na obra dialogam com Idade Média, Idade dos Homens não somente pela relação temporal e espacial, mas também por comprovar no âmbito literário o estudo historiográfico de Georges Duby. 
Logo no primeiro capítulo da obra de G. Duby, intitulado: “O casamento na sociedade da alta Idade Média” é apontada a necessidade de perpetuação da existência humana e a colocação do matrimônio e do sistema de parentesco como formas de regulação de um sistema cultural. Assumindo, portanto, uma estrutura de ritos que legalizam um ato privado e o torna religioso ao tomar a sexualidade para o campo do sagrado. 
Esta dicotomia que estabelece o casamento envolto entre o jurídico e o religioso, levam os historiadores às reflexões ideológicas e assim, logo no início, o autor aponta a necessidade de não construir uma leitura apenas com base nos materiais das leis e ressalta a existência de outros documentos não normativos que relatam o casamento com ideologias diferentes, permitindo diversas visões sobre o mesmo tema. Porém, mesmo ao dar ênfase para a importância de considerar outras perspectivas, o autor afirma que o religioso tende a suplantar o civil durante a Idade Média, caracterizando-se fortemente por um período com progressiva cristianização da instituição matrimonial. 
Outra caracterização é a relação negocial do casamento, do qual os homens mais velhos possuem o cargo de indicar com quem a mulher deve se casar, negociando suas vantagens de procriação e aos homens mais jovens o cargo de ajudar-lhes a escolher a melhor mulher. A posição que as crianças dessas relações assumirão no mundo tem total relação com as cláusulas das alianças feitas entre o casamento de seus respectivos familiares. Portanto, a importância master do casamento é primordial ao destino dos descendentes. 
Assim, as relações, propensas à endogamia, com vista a descendência de um mesmo ancestral, são precedidas de rituais que marcam a fidelidade com gestos e palavras públicas, seguidas de núpcias, que inauguram as funções de maternidade e de paternidade. Mesmo tendo o marido apenas uma esposa, essa configuração não nega ao homem o poder de manter relações com outras mulheres. Apenas a mulher possuía um ideal casto, visto que ao não corresponder a esse ideal, a mulher entendida como um ser perverso, comportaria o risco de introduzir outros herdeiros na estrutura familiar desregulando a descendência e a linhagem hereditária. 
Todavia, a igreja adota o casamento como forma de disciplinar a sexualidade, propondo uma moral conjugal em que os sacerdotes se inserem sacralizando o rito do casamento, em vista somente do ideal de procriação e prometendo a salvação exclusiva a quem possuir a prática de uma sexualidade conjugal casta. 
Sobre o que se sabe do amor na França, G. Duby afirma que a influência eclesiástica dirige o amor primeiramente para Deus, e as moças quando cedidas a algum homem não devem se desviar desse amor primordial. Portanto, o casamento não é lugar onde se define o que é amor. Os homens se distanciam de uma concepção egocêntrica, baseada na tradição patrística de Agostinho e se inspiram em Cícero com seu modelo de amicitia conduzindo a fusão do outro, assim, a mulher assume um papel de convergência sempre estando ao lado de um grande homem. 
Não é possível saber sobre a maioria das relações, visto que tudo se dirige às classes mais altas, que pagavam para que se falasse delas. Com a ideia de que a mulher é um ser fraco e perverso que deve ser subjugada e a de que o homem tem como dever servir-se. Mas é possível perceber a relação aristocrática, o chamado amor cortês, que salienta a hierarquia e as bases de organização social. 
Por exemplo, a proibição dos casamentos aos eclesiásticos davam aos clérigos a condição de ápice da hierarquia, já que a abstinência sexual lhes pareciam a garantia de uma superioridade. Inversamente, quando os clérigos propõem o casamento à sociedade são postas regras em vista de um comportamento que não afetem a distribuição de poderes. 
Para evidenciar a história do casamento na cultura, o autor utiliza dois textos que apresentam a condição feminina, são eles: o da condessa Ida de Boulogne e de Godelive que mostram como deve ser o bom casamento e colocam em cena personagens que imprimem uma submissão já esperada. Em Godelive, especialmente essa em que a esposa é infeliz, é possível estabelecer uma relação com o primeiro ballet feito com pantomimas: La fille mal Gardée ( A Filha Mal Amada ou Mal Guardada) criado em 1789 para o Grand Théâtre de Bordeaux por Jean Dauberval, que coloca em cena uma donzela com o casamento já destinado, no entanto, ao se apaixonar por um camponês a personagem perpassa os atos tentando encontrá-lo sem que sua mãe perceba a existência do seu amor proibido, devido somente ao fato da condição social estabelecida entre eles. Esse amor valoriza o corpo e o coração feminino, pois o homem e mulher devem ser unidos não só pela alma e pelo espírito, como também pela carne. 
Assim como obras literárias romanescas, que no mesmo âmbito, também apresentavam a organização de poderes e de relação da sociedade daquele tempo: um homem jovem que tenta conquistar a dama inalcançável por já ser protegida; um jogo de caça masculina, em geral, escritos a partir de um mecenato, em criações que correspondiam às expectativas do príncipe, porque o amor cortês valoriza o cavaleiro e a capacidade do homem de transformar-se e ascender socialmente ao aceitar as regras desse jogo. Além disso, o jogo do amor reprimia os impulsos e também dava esperanças a uma conquista: a dama, imbuída com o poder de estabelecer as hierarquias, de decidir quem a servia melhor cumprindo o melhor papel de vassalo e, assim, escolher quem ganhava. Esses ideais promoveram a amicitia, de Cícero, dando o exercício da entrega, da fidelidade e, assim, o exercício da submissão como uma valorização do outro.
O romance de La Rose de Guillaume de Lorris, é um poema evidenciado no capítulo “O Roman de La Rose” que trata de um refinamento e a impressão de valores feminino datados a partir do século XII, do qual a cavalaria se prolonga como educação e a dama, ao mesmo tempo que era objeto de desejo era a juíza da ambição masculina de possuir independência ao casar-se. A obra introduz uma nova noção da moral cavalheiresca, que foi como um remédio para as contradições da sociedade aristocrática. Os senhores conduziam os jogos e as mulheres atuavam como figurantes, o que comprova o fato de todos os poemas do amor cortês terem sido cantados por homens, todos os desejos, portanto, terem pertencido aos homens. 
Uma abertura econômica na sociedade, em que os favores reais e as recompensas que se ganhavam servindo ao estado permitiram a propagação da descendência, transforma o que antes era tão importante, como a preservação do casamento apenas do filho mais velho. A aparência violenta que os cavalheiros apresentavam diminui, dando espaço também a uma maior quantidade de pessoas para praticar as atividades, como uma forma de educação, os jovens, logo após a infância, eram destinados a uma espécie de escola de cavalaria. 
Cuja imagem, Guillaume ressalta, estava no imaginário da cavalaria na França durante a decadência de um feudalismo em direção à ascensão de uma aristocracia. O livro de Guillaume de Lorris seduziu a alta sociedade, mas também seduziu aos que desejavam adentrar nela, pois marca a expansão dos campos para as cidades, o deslocamento das forças e as transformações das estruturas de poder. 
Em seguida , G. Duby no capítulo intitulado “Para uma História das Mulheres na França e na Espanha” levanta problemáticas como a falta de uma literatura e registros feitos por mulheres. Ainda afirma que para ele “seria ineficaz separar a história da mulher da história do homem”(pg.110) é preciso conjecturar a coerência entre as condições femininas e masculinas, estabelecendo suas diferenças, semelhanças e principalmente as distâncias entre elas. Na base da sociedade encontra-se o casal, o homem e a mulher, e no interior dessa sociedade doméstica existem as divisões de papéis, as quais para a mulher estavam destinados os feitos do campo interno, função essencialmente feminina em que a casa encontra-se, muitas vezes metaforicamente, como um alongamento do corpo feminino. 
Para Virginia Woolf, em Um teto todo seu, uma escrita andrógina seria o necessário para uma escrita em que a mulher não estivesse somente no lugar da sala de estar, na carta ou no diário; ou na representação apenas erótica de seu corpo, voz e subjetividade. Cabe, portanto, questionar e colocar em relevância que subjetividade se trata aqui de uma construção do sujeito, do qual vale ressaltar que no período medievo não havia a concepção burguesa de criação em literatura. 
Com o propósito de repensar as acepções literárias, existem hipóteses de que a literatura não deve ser designada para nada que não tenha sido criado após o seu surgimento. A denominação de qualquer produção com matriz literária feita antes do século XIX consistiria numa significação anacrônica e equivocada, alheia às mudanças históricas, pois se tornaria um objeto de reconcepção que não leva em consideração a relação medieval literária com as novas ideias formuladas. Um exemplo é a própria ideia de autoria que, quando medieval, apresenta características passíveis de glosa e emulação, contrapondo o individualismo criativo do autor, concepção essa que foi criada a partir do século XIX. Portanto, para produções literárias feitas antes do século XIX é preciso compreender os preceitos e os contextos em que eram produzidas. 
Portanto, subjetividade aqui se refere à construção feminina, que não é utilizada de forma anacrônica nem equivocada, visto que a intenção destes estudos é “Levantar legibilidades verossímeis dos objetos antigos para ampliar o vocabulário crítico do presente.”(PÉCORA, 2005) A importância de compreender quais relações foram estabelecidas para que exista esta lacuna historiográfica faltante de evidências de como a feminilidade, e a própria sexualidade feminina se construíram e por quais motivos se deram o apagamento desta subjetividade. 
As primeiras expressões de um discurso feminino que não são colocados em dúvida, como As Cartas Portuguesas que possuem autoria misteriosa, são as obras de Christine de Pisan, as aldeãs de Montaillou e até mesmo o processo de Joana D’arc, que atuam como inauguradores tardios de uma voz feminina documentada.      Georges Duby, afirma que devido aos poucos documentos femininos e a aparente falta de poder da mulher, também é possível ressaltar, segundo as fontes de Martínez Gros, que dentre as mulheres havia uma estruturação hierárquica, na qual a esposa do senhor exercia o poder sobre as outras mulheres de uma casa. Para além deste referencial interno, que aparenta se esvair da condição esperada, a mulher de maneira equivocada era tida pelo homem como um objeto de desejo, mas também de temor masculino. 
Essa situação comprovada pelos textos da Sagrada Escritura que propõem a figuração exemplar da relação homem-mulher, substanciando as relações de submissão, às quais as mulheres devem reverenciar os homens que tem poder sobre elas e a paixão não deve se misturar ao casamento. No campo doméstico e religioso o domínio da voz masculina é maior, no entanto, no campo religioso são aos poucos dados lugares às mulheres com os asilos monásticos e também com a construção da imagem de Nossa Senhora, a figura de Maria como figura da maternidade, da santa virgem, apegada a silhueta de um casal como um modelo referencial. 
Devido às poucas fontes passíveis de uma ideologia não dominante, os estudos medievais são repletos de mistérios e deformações, tanto os documentos tantos as obras ficcionais e, ou autobiográficas repletas de ideologias que talvez não se aproximem da realidade, no entanto, para Georges Duby, a formação ideológica do amor cortês não pode ser descolada das relações políticas, sociais e da história da época. 
Em As Cartas Portuguesas, é possível perceber esses mistérios que permeiam a voz feminina na Idade Média, não só pelo problema de autoria, mas a própria utilização da epístola na obra traz uma marca do lugar social em que as mulheres estavam inseridas, o que pode ser intensamente relacionado com o gênero e o estilo da obra. Visto as distorções inerentes à autoria são ponderadas as construções de ideologias construídas em favor de uma submissão, a feminização cristã, em que a mulher adere a religiosidade é comprovada pelo comportamento da época evidenciado no livro. Sendo, Mariana Alcoforado uma mulher que passou a vida no convento, ao enviar cartas ao Marquês de Chamilly, oficial francês que serviu em Portugal durante a Guerra de Restauração, a posição social em que estão estabelecidos: Mariana como freira e Chamilly como um oficial, tornam o gênero utilizado comprovado pelo lugar em que a voz poemática está inserida socialmente. Até seria provável de supor que se o marquês escrevesse algo à Mariana escreveria utilizando o imaginário da guerra, das viagens que fazia. Enquanto para Mariana, estão as cartas, como prova de uma voz que está marcadamente relacionada ao que diz respeito ao interno, ao familiar. 
Reconhecendo as máscaras que a Idade Média apresenta, o autor de maneira a comprovar a escassez de documentos sobre mulheres, reconstrói em seu livro a imagem proposta e idealizada da mulher, mas também contribuí para sua desconstrução. Ao ter por base fontes que são desde escritos normativos, até crônicas e correspondências, avalia o amor e o casamento consciente da parcialidade das documentações e das idealizações a respeito das feminilidades, sempre levando ao leitor indagações que comprovam o lugar de desestabilização que acerca o tema, assim Georges Duby, de maneira sutil, discorre sobre os confrontos do casamento e descortina o mundo feminino e medieval.


Bibliografia:


ALCOFORADO, M. As Cartas Portuguesas. Porto Alegre: L&PM, 2010. 
DUBY, G.Idade Média, Idade dos Homens: do amor e outros ensaios; Tradução Jônatas Batista Neto.- São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
TIN, E. A Arte de Escrever Cartas: Anônimo de Bolonha, Erasmo de Rotterdam, Justo Lipsio. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2005.
WOOLF, Virginia. Um teto todo seu. Tradução Bia Nunes de Sousa, Glauco Mattoso -1. ed.- São Paulo: Tordesilhas, 2014.