quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Em Andamento



Não acabava nunca. 
Ler e escrever, 
e escrever também. Apenas escrever. Caoticamente. 
Fora da vida. Então, 
vou publicar. Jornais, revistas. 
Uma amadora com hiatos intoleráveis. 


II


Lanço-me oca à outra coisa. 
Um filho, enjoo, filho ordena, eu ordenho. 
reveste os tubos do sistema digestório. 
Da língua ao estômago. Triste e solitário gosto do café. 
Enjoa. Bebe água para purificar. 
Enjoo. Dorme e ao deitar sonha estar grávida. 
Chuta o homem que lhe ocasionou isso. 
Uma gravidez indesejada. Nasce um conto.


III


Sem personagem, com personagem.
Quem é ela? Cor do cabelo? Altura?
Quantidade de gordura?
E ela disse, e ele disse, e aí ela disse, então ele disse.
Genial sua história. Deu uma revolta enorme.
Lá em terra vermelha, serra azul distante.
Quem será massacrado pela polícia? Vou discutir política.
Não serei boa esposa, não serei boa.
Então por que continuar escrevendo, Clarice? Falar,
pouco,
menos. Possível contato com latinos americanos.
Uma inocência pisada, sonho massacrado escrever mais
e de novo. Quem será a heroína? Medo de falar comigo,
sua cara é séria. Você diz difícil,
seus interesses não são os mesmos.
Você assiste novelas? Não. E isso espanta.
Mas você lê? Sou obrigada.
Paixão? Não tenho, já tive. Não arrisco mais.
Toca? Não toco. Joga? Não jogo.
Muito estranha você. Mas calma,
não uma aberração. O que você acha?
Não tenho a menor ideia.
Quem te compreende? Ninguém. E agora?
Não mudei. Você mudou? Não. No fundo tudo é muito simples.
Sem enfeites.

IV


A destreza com que as palavras entravam em seu corpo 
e ficavam lá, imóveis. 
Sem qualquer tolerância que a fizesse mudar, 
nem sequer um esquecimento, 
ou uma surdez temporária, que fosse. 
Nada parava o ressoar, 
como sinos ao meio dia, daquelas palavras, 
as mais toscas. E enquanto sozinha, 
em qualquer cômodo, ela conseguia ver todos. 
Todos em volta, sempre. 
Fosse na rua, teria alguém, 
olhando e dizendo palavras com pregos, 
acompanhada no irreal. quando real, diriam: porque está sozinha? 
suspiro, 
não estou. ou, eu gosto. 
ou um silêncio. 
Por que a promessa do falar o menos possível 
é a mais suportável. E existe o silêncio, 
um silêncio, 
ou apenas silêncio. 
e das comunicações mais complexas, 
se estabelece um sistema. 
Até nos pequenos momentos de felicidade, 
o silêncio estava lá. 
O mais estranho dos mistérios humanos, 
o que eu mais compreendo. 
E gosta, gosta do silêncio. 
O sol entende, deus entende. 
todas essas coisas que não existem mas veem, 
não existem mas sentem 
e entre tantos outros usam do silêncio para sua comunicação 
e do irreal para nos fazer rodar 
e rodar em volta do milagre.