segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Uma pequena análise do feminismo na história da filosofia tendo como inspiração o filme: A Excêntrica Família de Antonia de Marleen Gorris






A filosofia sempre se apresentou como um movimento sem gênero, neutro, universal. E quando falamos de gênero nos referimos a uma construção sócio histórica das identidades masculina e feminina. Existem diversas legitimações representando a desigualdade entre os gêneros, começando pela mitologia, com Pandora, a primeira mulher criada para agradar os homens e responsável por haver desencadeado todo tipo de desgraça. E também, na tradição judaico-cristã, é possível perceber a colocação da mulher no âmbito da culpa, na tentativa de justificar as condutas como próprias do sexo, onde a mulher tem posição inferior, como pode ser exemplificado com este trecho da bíblia: “Então o Senhor Deus fez o homem cair em profundo sono e, enquanto este dormia, tirou-lhe uma das costelas, fechando o lugar com carne. Com a costela que havia tirado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher e a levou até ele. Disse então o homem:’ Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada mulher, porque do homem foi tirada’.” Gênesis 2:21-23.  
E não somente os mitos e as religiões possuem discursos misóginos, também na filosofia, como, para Pitágoras[1], a mulher era vista como um ser que surgiu das trevas; Aristóteles considerava a mulher como um homem não completo, passiva e receptora. Acreditava que os homens eram ativos e provedores e que as crianças herdavam apenas as características paternas. [2]
Para Tomás de Aquino as palavras de Aristóteles estavam em harmonia com as palavras da bíblia, na qual está escrito que as mulheres foram criadas a partir da costela do homem. No entanto, Tomás de Aquino considerava a alma das mulheres tão valorosa quanto a alma masculina e que no céu a separação entre os sexos cessa. Para Hegel a altercação existente entre um homem e uma mulher é igual a que há entre um animal e uma planta, sendo que o animal se identifica mais com o jeito do homem e a planta se molda mais conforme o aspecto da mulher, pois seu progresso é mais pacato, deixando-se levar mais pelo sentimentalismo. Assim, se as mulheresestiverem no comando o Estado corre perigo pois, segundo o ideário hegeliano, elas não atuam de acordo com as exigências do agrupamento de pessoas que estão governando e sim conforme seu estado de espírito.
Divergindo, Platão afirmava que as mulheres seriam tão capazes de liderar o estado quanto os homens, bastando apenas que recebam a mesma educação e sejam dispensadas dos afazeres domésticos. Acreditava que a educação infantil deveria ser responsabilidade do estado. Ele diz que um estado que não promove suas mulheres é como um homem que exercita apenas um braço.
Christine de Pisan
Na Idade Média a filosofia era dominada por homens, mas isso não significa que não existiram pensadoras mulheres. Hildegard von Bingen, mesmo sendo mulher exerceu os ofícios de oradora, escritora, médica, botânica. Na Itália, no século XVII, três mulheres despontaram como percursoras do feminismo. Moderata Fonte, em 1600, publicou “Valor da Mulher”, expondo a situação das donas de casa que viviam como “animais encurralados entre paredes”. Lucrécia Marinelli, em 1601, escreveu “A Nobreza e a Excelência da Mulher”, defendo a igualdade entre os sexos. Arcângela   Tarabotti entre 1620 e 1652(ano de sua morte) escreveu cartas e textos que denunciavam a inferioridade da mulher e o moralismo presente. No final da Idade Média, Christine de Pisan, escreveu “Cidade das Mulheres” obra na qual defende a igualdade entre homens e mulheres e uma igual educação para ambos.
Apesar dessas significativas participações, a imagem que prevalecia da mulher era a associada à fragilidade e à indolência. Pregava-se que as mulheres eram uma criação inferior de Deus, como uma armadilha para que os homens pecassem. E associadas a esses tributos endemoniados as mulheres foram perseguidas e limitadas durante séculos, uma Caça às Bruxas que perdura, infelizmente.
O século XVIII marcado pelo Iluminismo, que prega a individualidade e a autonomia aos seres humanos.  Não considerou como ser humano a mulher, pois seus pensadores: Condillac, Voltaire, Locke, Montesquieu, Kant e Rousseau percebiam as mulheres como dotadas de uma razão inferior e até irracionais. A revolução Francesa, de 1789 a 1793, com seus ideais de Liberté, Egalité e Fraternité, obteve em 1791 a participação de Olympe de Gouges que publicou a Declaração dos Direitos das Mulheres e da Cidadã, proclamando que as mulheres possuem direitos assim como os homens e devem estar inseridas na vida política em condição de igualdade. Não obstante, infelizmente, Olympe de Gouges foi guilhotinada em 3 de novembro de 1793 e as mulheres foram acusadas contra a revolução. A primeira constituição francesa, de 1807, coloca a mulher sob a tutela do marido.
No século XIX, o feminismo emancipacionista é impulsionado e se consolida o sistema capitalista. A inferioridade se expande às diferenças salariais gritantes. O argumento utilizado para justificar foi o mesmo utilizado em 1981 pelo Paulo Maluf, ao enfrentar uma greve de professoras de escolas públicas de São Paulo por melhores salários ele disse: “elas não ganhavam mal, mas eram malcasadas”.  Acreditava-se e alguns ainda acreditam que a mulher deveria ter um homem que a sustentasse.
Com tanta exploração, as líderes operárias Jeanne Deroin e Flora Tristan defendiam a luta pelos direitos das mulheres e da classe trabalhadora. Jeanne Deroin elaborou um projeto de União das Associações dos Trabalhadores, que deu origem aos sindicatos trabalhistas, para não correrem o risco de desmoralizar o movimento operário por ter uma mulher como líder a autoria do projeto foi ocultada e Jeanne com outros companheiros foi presa. Homens e mulheres participaram da luta e foram vítimas de repressão. No entanto, Jeanne foi defraudada. E ainda hoje uma das lutas do feminismo é o salário igual pelo mesmo trabalho, porém, é bom que se questione: defender a igualdade no mercado de trabalho não é criticar a exploração capitalista de trabalho, e sim mantê-la, fazendo com que as mulheres tenham igual direito de serem exploradas e de realizarem trabalhos alienados.
Em 1871 surge o movimento feminista que se estende até fins da 2º Guerra Mundial e coloca em tona um debate entre o Marxismo: defendia que a emancipação dependia da contradição mulher-sociedade e entre o feminismo que defendia a contradição homem-mulher. É com o feminismo reformista que surgem as sufragistas. Os marxistas consideravam o movimento de caráter reformista burguês. Porém, mesmo vistas como burguesas para socialistas e perigosas para católicos, foram vencidas politicamente.
O capitalismo contemporâneo deu ao feminismo diversas vertentes. Andrée   Michel em seu livro “O Feminismo” afirma que as diferenças entre o sexo masculino e feminino não são provenientes da natureza e sim da educação diferenciada proporcionada a ambos os sexos; a ampliação das lutas feministas e sua vinculação a todas as necessidades da sociedade, etc.
O período que precede a 1º Guerra Mundial abriu à mulher novos espaços. O direito ao voto foi conquistado em 21 países. Iniciando-se então a defesa dos direitos das trabalhadoras: a igualdade das condições de trabalho, o direito dos filhos ilegítimos. Enquanto as feministas do ocidente da europa lutavam pelos direitos econômicos, políticos e civis, as mulheres russas acreditavam que a revolução de 1917 lhes daria todos esses direitos. Os primeiros decretos da revolução Bolchevista atenderam em grande parte as reinvindicações femininas: seguro doença; proibição de demissão de mulheres grávidas; divórcio facilitado, etc. Porém, terminada a guerra civil, pouco a pouco as mulheres foram perdendo seus direitos.
Em 1939 eclodiu a 2º Guerra Mundial e a mulher tomou lugar a espaços, trabalhos antes tidos como masculinos. Muitas delas também foram presas e torturadas em resistência ao fascismo. Terminada a guerra em 1945, as mulheres participam da redemocratização de seus países. Em 1949, Simone de Beauvoir, escreve “O Segundo Sexo”, o qual assinala o aparecimento do feminismo radical contemporâneo.  A autora denuncia as raízes culturais da desigualdade sexual, descrevendo as causas culturais. Segundo Simone, “as mulheres sempre foram marginalizadas porque os homens de todas as classes e partidos sempre lhes negaram uma existência autônoma”. Acusa a burguesia de ter mantido e acentuado a opressão feminina. Para ela a “opressão da mulher está inscrita na origem dos tempos” e “o proletariado pode mudar de classe, a mulher não pode mudar de sexo”. Daí a singularidade das lutas da mulher. Pois a mesma relação patriarcal existente no Afegão, não é a mesma do Brasil.
Em 1963, Betty Friedman publica “A Mística da Feminilidade” no qual são explicadas as novas características da opressão. Em casa a mulher realiza um trabalho não retribuído, alienante e desempenha como compradora uma importante função. O livro provocou uma ação de encontros e desencontros, produzindo teorias e dando maior amplitude.
Em 1970, Kate Millet descobriu no patriarcado a base de todo poder e em seu livro “A política dos sexos” expos suas ideias. Sulamita Fierestone, em “A Dialética dos Sexos” prevê uma revolução feminista que seja capaz de modificar a organização da própria natureza. Colocando em pauta a relação entre marxismo e feminismo. O movimento se consolida em torno de outros assuntos como o aborto, o divórcio.
Há pelo menos duas teorias feministas que procuram superar as limitações dos conceitos fundamentais sem no entanto abandona-los totalmente. Uma é o feminismo socialista que parte do referencial teórico marxista para analisar a base material da dominação masculina e a outra é o feminismo negro.
O movimento feminista socialista propôs alternativas para intersecção de raça, gênero, orientação sexual e classe social. A corrente feminista socialista alcançou maior intensidade na Alemanha, graças à atuação de Clara Zetkin e Rosa Luxemburgo. Essa corrente surge depois da publicação do Manifesto Comunista por Marx e Engels. A questão da opressão feminina era vista como consequência do surgimento da propriedade privada e a incorporação da mulher na produção social que criaria as bases para a libertação.
Para o feminismo negro é necessário compreender que a experiência da opressão sexista é dada pela posição que ocupamos numa matriz de dominação onde raça, gênero e classe social interceptam-se em diferentes pontos. Assim uma mulher negra experimenta a opressão a partir de um lugar que proporciona um ponto de vista diferente sobre o que é ser mulher numa sociedade desigual, racista e sexista. Raça, gênero, classe social, orientação sexual reconfiguram-se mutuamente formando o que Grant chama de um mosaico que só pode ser entendido em sua multidimensionalidade. De acordo com o ponto de vista feminista, portanto, não existe uma identidade, pois a experiência de ser mulher se dá de forma social e historicamente determinada.
 O Uso do conceito “mulher” carrega diversos signos reforçando estereótipos. O que define uma mulher?  “Existiriam traços comuns entre as “mulheres”, preexistentes a sua opressão, ou estariam as “mulheres” ligadas em virtude somente de sua opressão?” [3]Um ponto de contestação que causa ansiedade, mas é daí que se estabelece as relações de gênero. Nosso gênero é constituído e representado de maneira diferente segundo nossa localização dentro de relações globais de poder. É agora axiomático na teoria e prática feministas que “mulher” não é uma categoria unitária. O signo “mulher” tem sua própria especificidade constituída dentro e através de configurações historicamente específicas de relações de gênero. Seu fluxo semiótico assume significados específicos em discursos de diferentes “feminilidades” no qual vem a simbolizar trajetórias, circunstâncias materiais e experiências culturais históricas particulares.
Bell Hooks, destacada feminista afro-americana afirma que o que as mulheres compartilham não a mesma opressão, mas a luta para acabar com o sexismo, ou seja, pelo fim das relações baseadas em diferenças de gênero socialmente construídas.  Para os negros é necessário enfrentar esta questão não apenas porque a dominação patriarcal conforma relações de poder, mas também porque o patriarcado repousa em bases ideológicas semelhantes às que permitem a existência do racismo a crença na dominação construída com base em noções de inferioridade e superioridades. Nesse sentido a frase “o pessoal é político” para Hooks não significa como muitos ainda a interpretam a primazia de uma dimensão sobre a outra mas a compreensão de que o pessoal pode constituir-se em ponto de partida para a conexão entre politização e transformação da consciência. Logo não se trata de uma simples descrição da experiência de opressão de mulheres por homens mas do entendimento crítico sobre o terreno de onde essa realidade emerge.
Outra vertente é o ecofeminismo, a qual batalha por um novo tipo de desenvolvimento que proporcione uma melhor qualidade de vida ao ser humano. Essa nova corrente de pensamento e prática nasce como preocupação pela natureza entendida de duas formas: como natureza interna (nossos próprios corpos) e como natureza externa (o meio ambiente e os seres vivos não humanos). Dentro da corrente ecofeminista, a figura mais conhecida como ativista política é Vandana Shiva.
A partir dessa amplitude de feminismos, é perceptível a experiência fragmentada e a análise de contextos diversos para se definir e constituir um movimento. Após êxitos e descobertas, a ascensão da participação da mulher na história; O feminismo se recria sob diversas perspectivas. A descriminalização do aborto, a violência doméstica são temas cada vez mais discutidos. Com a distribuição de adesivos e panfletos com a frase “Não é não!”, os avisos nos trens de que abuso sexual é crime e as diversas manifestações; nos fazem acreditar na conscientização da população e de um reconhecimento do próprio corpo como matéria política de empoderamento.
Com a ascensão das redes sociais e a potência de compartilhamento, é observável a rede de discussões e divulgações do movimento, indo desde textos que explicam o feminismo até divulgações de eventos.
O surgimento de denominações como: manterrupting , homens que interrompembropriating, quando um homem se apropria de uma ideia já expressa por uma mulher; mansplaining, quando um homem se dedica a explicar algo óbvio de maneira didática para uma mulher, como se ela fosse incapaz de compreender e gaslighting, derivado do termo inglês gaslight, termo utilizado quando a mulher é induzida a acreditar que está louca, a duvidar do seu senso de raciocínio, memória e sanidade. Esses termos nomeam padrões fortemente existentes na sociedade e sinalizam comportamentos machistas recorrentes no cotidiano. 
Ao mesmo tempo em que as diversas vertentes abrangem os tipos de olhares sobre o feminismo essas mesmas vertentes os dividem. Tornando o discurso feminista um discurso controverso, no qual já não se sabe mais quem ou o que se ataca, campo minado, onde as ações se transformam em simbologias e palavras. Esquecendo-se dos atos que confirmariam o feminismo. Exibição de subjetividades e um mero contentamento com palavras jogadas ao vento.
Portanto, a esperança de que esse momento de revitalização e localização possam ser enriquecedores alimenta a esperança. E ao analisar a posição das mulheres a pouco tempo atrás e o como transgredimos hoje; ao entrar numa sala com maioria mulheres e pensar nas avós e bisas que foram humilhadas, que não puderam estudar, não puderam ter profissão pelo fato de ser mulher e de tudo que o ser mulher carrega junto de si imposto socialmente. Antonia representa a harmonia e o equilíbrio como consequência da desconstrução patriarcal; e representa a construção da instituição família de maneira quase utópica. Quase por que a luta feminista continua.
Bibliografia:
Beauvoir, Simone. O Segundo Sexo. 3º ed. Rio de Janeiro: Nova fronteira,2016
Alambert, Zuleika. Mulher uma trajetória épica. São Paulo 1997: Imprensa Oficial do Estado S. A. IMESP
Butler, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. 3º ed.- Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.
Chaui, Marilena. O que é ideologia? São Paulo: Brasiliense, 2006
Gaarder, Jostein. O mundo de Sofia: romance da história da filosofia. 1º ed- São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
Auad, Daniela. Feminismo: que história é essa? - Rio de Janeiro: DP&A,2003.
Brandão, Margarida e Bingermer, Maria. Mulher e Relações de Gênero. Edições Loyola, São Paulo, 1994
Filosofia e gênero: da memória do passado ao projeto de futuro. Alicia H. Puleo http://www5.uva.es/catedraestudiosgenero/IMG/pdf/filosofia_e_genero.pdf
Nossos Feminismos Revisitados.  Luiza Bairros https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/viewFile/16462/15034



[1] “Há um princípio bom que criou a ordem, a luz e o homem, e um princípio mau que criou o caos, as trevas e a mulher.” PITÁGORAS
[2] Os ovários dos mamíferos só foram descobertos em 1827.
[3] Judith Butler em Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade.

Resenha: Preconceito Linguístico: o que é, como se faz

Livro

Preconceito Linguístico: o que é, como se faz


Marcos Bagno, reconhecido pela sua destreza ao falar da língua portuguesa, possui 34 livros publicados, entre eles livros juvenis, infantis e de contos; tendo ganhado os prêmios: Nestlé de Literatura Brasileira em 1988; Jabuti em 2012 e o prêmio Literário da Fundação Biblioteca Nacional em 2013. Doutor em Filologia e Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo. Assume como tema recorrente de suas obras a utilização de variantes da língua e o preconceito.

No livro “Preconceito Linguístico” Marcos Bagno assume a posição de quebrar estigmas e investiga as inferências socioculturais do conceito norma culta, sobretudo nas escolas brasileiras. Logo na introdução Bagno afirma tratar a língua como um tema político, não desconectando a língua das pessoas que a utilizam no cotidiano, sendo assim um objeto de estudo que sempre está em alteração.

O livro possui diversas edições, pois Bagno se preocupa em trazer novas informações, o que torna o livro especial, além do cuidado de sempre atualiza-lo, são os exemplos tão evidentes no dia a dia; desmistifica, assim, diversos mitos presentes na sociedade brasileira. Como também explicita a história por trás da foto escolhida na capa e utiliza as vivências em aulas, palestras, ou até mesmo cartas que o autor respondeu à revista Veja em seu livro, aproximando o leitor de sua obra.

A edição utilizada aqui, é a edição de 2007 pela editora Loyola. Bagno recusa a noção simplista de “certo” e “errado” e inicia o primeiro capítulo desmistificando os mitos que assombram a língua portuguesa.

O primeiro mito é o de que a língua portuguesa é homogênea. A afirmação de que exista uma unidade linguística no Brasil implica em imposição da norma culta nas escolas como se ela fosse, de fato, a língua falada por milhões de brasileiros. Bagno ressalta como exemplo desse mito a linguagem utilizada na constituição e por órgãos públicos, que distancia uma grande parcela da população falante das variedades desprestigiadas dos serviços públicos. Nesse primeiro mito utiliza de autores como Maurizzio Gnerre, Darcy Ribeiro, Stella Maris Bortoni-Ricardo expondo trechos de pesquisas e obras para complementar sua obra ou, como faz com Darcy Ribeiro, para exemplificar a obstinação do preconceito em nossa cultura.

A opinião de que apenas em Portugal se fala o português corretamente, é o segundo mito do livro. Essa ideologia impregnada, revela o complexo de inferioridade resultante da colonização do Brasil por Portugal.  O autor analisa os contextos históricos e explica as origens desse julgamento, tratando as línguas apenas como diferentes, e não melhor ou pior, certa ou errada.
A partir disto, o terceiro mito: português é difícil. Com o ensino da língua baseado na norma gramatical de Portugal, as regras que aprendemos não correspondem à que falamos e escrevemos no Brasil, nos fazendo decorar regras que não se aplicam a realidade.

Os fenômenos fonéticos, que contribuíram para a formação da língua, quando considerados errados não se deve apenas a uma questão linguística, mas sim a uma questão social e política. Pois, o rotacismo é um fenômeno existente na língua padrão e na língua não-padrão, no entanto são considerados errados quando ocasionados por parcelas desprestigiadas da sociedade. Configura-se, assim, o quarto mito: “As pessoas sem instrução falam tudo errado.”

“O lugar onde melhor se fala o português no Brasil é o Maranhão” - no Maranhão utiliza-se com regularidade o pronome tu e somente devido a esse arcaísmo que se aproxima das variações literárias e da língua utilizada em Portugal é que se mantém a concepção de que no Maranhão é falado o português da melhor forma. Neste quinto mito, Bagno abona a atribuição a um lugar ou comunidade de falantes melhores ou piores e ressalta o respeito que se deve ter com todas as variedades da língua.

A supervalorização da língua escrita, resulta no repúdio das diferentes formas de falar a língua, assim torna-se o sexto mito de que “o certo é falar assim por que se escreve assim”. A forma escrita é uma representação gráfica, pictórica e convencional da língua falada, portanto não existe nenhuma ortografia que consiga reproduzir a fala.

O mito de que é preciso ensinar gramática para aprimorar o desempenho na fala e na escrita, se invalida, segundo o autor, pelo fato de que se fosse verdade todo gramático escreveria bem e todo escritor seria especialista em gramática, e também pelo fato de que a gramática normativa surgiu como decorrente da língua, porém a inversão dessa concepção coloca a gramática como um instrumento de poder e controle.

E, fechando o primeiro capítulo do circuito mitológico, o último e oitavo mito coloca a dominação da norma culta como um instrumento de ascensão social. É preciso garantir o ensino da norma culta à todos os brasileiros, sem o julgamento de valor, mas também é preciso garantir o acesso à educação no seu sentido mais amplo como também à diversos outros serviços.

Os mitos anteriores examinados pelo autor, são no segundo capítulo do livro, colocados em um mecanismo que o autor chama de “Círculo Vicioso do Preconceito Linguístico” constituído pela gramática tradicional que inspira a prática de ensino e estimula a produção de livros didáticos. E por um quarto elemento chamado pelo autor de comandos paragramaticais, concebidos pelos arsenais de produtos (multi)midiáticos que possuem como objetivo “ajudar” quem tem dúvida na hora de falar ou escrever, porém tais conteúdos estão espessos de preconceito. Marcos Bagno faz uma análise dos comandos paragramaticais, recorrendo aos exemplos do Professor Napoleão Mendes de Almeida, do Luiz Antônio Sacconi e Dad Squasari, os quais são autores que utilizaram meios midiáticos com a proposta de auxiliar no uso das regras da gramática normativa, recorrendo-se de afirmações preconceituosas para justificar tais normas.

Para desconstruir o “Círculo Vicioso do Preconceito Linguístico”, no terceiro capítulo, nomeado “A Desconstrução do Preconceito Linguístico”, Marcos Bagno convida o leitor a reconhecer a crise existente no ensino da língua portuguesa e especula uma gramática da norma culta brasileira, que seja prática e útil aos falantes da língua em geral, com objetivos didáticos pedagógicos claros.

Porém, enquanto essa gramática não chega, o autor expõe a necessidade de combater o preconceito linguístico no subcapítulo intitulado “Mudança de Atitude”, no qualincentiva o leitor a recusar atitudes que visem menosprezar o saber linguístico individual e acionar o senso crítico sempre que se deparar com um comando paragramatical. Também sugere aos professores a reflexão do próprio objeto de trabalho: a norma culta. E a colocação do professor de língua numa posição crítica, o qual deva produzir seus conhecimentos da gramática, transformando-se em um pesquisador.

Outra questão levantada no terceiro subcapítulo é: “O que é ensinar português?” inserida no capítulo dois do livro, onde Marcos Bagno afirma que o conhecimento dos nomes das classes de palavras, as definições de orações, os termos das orações etc. não garante que o aluno seja um competente usuário da língua culta. Quando interrogado sobre a utilização da nomenclatura tradicional, das definições e análises que devem ser cobradas no vestibular, Marcos Bagno sugere a organização de profissionais da área educacional, mobilização para que as provas de concursos sejam elaboradas de outra maneira.

Adicional ao modo de romper com o círculo vicioso do preconceito linguístico é reavaliar a noção de erro. Muitas das vezes os “erros” de português são confundidos com “erros” de ortografia. No quarto subcapítulo Bagno exemplifica tais “erros” e no quinto traz o questionamento “Então Vale Tudo?”, no qual consolida o papel do professor de conscientizar o aluno a se adequar a diversas situações de uso da língua, promovendo o equilíbrio entre os eixos: aceitabilidade e adequabilidade.

A preocupação do professor com a forma e não com o conteúdo produzido em um texto do aluno, é a indagação que o autor traz no sexto subcapítulo intitulado “A Paranóia Ortográfica” o que são vistos como erros são meros erros ortográficos e a ortografia não faz parte da gramatica da língua. A preocupação deve se restringir primeiramente ao que o aluno quer comunicar e depois a correção com a ortografia, que se faz principalmente com o contato íntimo e frequente com textos bem escritos. Logo, deve-se atentar as ideias dos alunos e estimula-los a produção e leitura de textos, consequentemente as correções ortográficas virão.

Concluindo o terceiro capítulo, Bagno sintetiza posturas que devem ser adotadas para subverter o preconceito. Dá exemplos de comentários que possam ser feitos para rebater, por exemplo, o questionamento das escolas, diretores e pais que, em geral, ainda creem no ensino de uma gramática tradicional.

O quarto capítulo do livro, intitulado “O Preconceito Contra a Linguística e os Linguistas”, nos levanta diversas questões a respeito da posição dos linguistas sobre a língua e seu importante papel social. O discurso gramatical tradicional já tão criticado pelos linguistas continua tendo seu vigor. Por que? Como Bagno, nos incita: “A quem interessa defender o “português ortodoxo” de uns pouquíssimos “melhores” contra a suposta “heresia gramatical” de muitos milhões de outros?”

A democratização da língua reflete no tipo de sociedade em que estamos inseridos e a atualização da língua e da linguística como ciência se torna essencial em tempos em que pessoas são caladas por não saberem “corretamente” o português. No anexo inserido ao final do livro com a carta de Bagno à revista veja, fica explicito o desmazelo das mídias com os estudos linguísticos e, também a indignação de Marcos Bagno, que como pesquisador coloca-se com clamor, lutando pela democratização da língua.

O livro “Preconceito linguístico: o que é, como se faz” coloca o leitor fora da sua posição de conforto, incitando ao debate e atitudes que podem cooperar para a decaída de estereótipos. Um livro que acrescenta na formação, não apenas de estudantes de Letras ou Jornalismo, mas também coopera na formação do sujeito social, levando o leitor ao posicionamento crítico da utilização e ensino da sua própria língua.

BAGNO, M. Preconceito Linguístico: o que é, como se faz. 52 ed. São Paulo: Edições Loyola, 2009. 207 p.