A filosofia sempre se apresentou como um movimento sem gênero, neutro, universal. E quando falamos de gênero nos referimos a uma construção sócio histórica das identidades masculina e feminina. Existem diversas legitimações representando a desigualdade entre os gêneros, começando pela mitologia, com Pandora, a primeira mulher criada para agradar os homens e responsável por haver desencadeado todo tipo de desgraça. E também, na tradição judaico-cristã, é possível perceber a colocação da mulher no âmbito da culpa, na tentativa de justificar as condutas como próprias do sexo, onde a mulher tem posição inferior, como pode ser exemplificado com este trecho da bíblia: “Então o Senhor Deus fez o homem cair em profundo sono e, enquanto este dormia, tirou-lhe uma das costelas, fechando o lugar com carne. Com a costela que havia tirado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher e a levou até ele. Disse então o homem:’ Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada mulher, porque do homem foi tirada’.” Gênesis 2:21-23.
E não somente os mitos e as religiões possuem discursos misóginos, também na filosofia, como, para Pitágoras[1], a mulher era vista como um ser que surgiu das trevas; Aristóteles considerava a mulher como um homem não completo, passiva e receptora. Acreditava que os homens eram ativos e provedores e que as crianças herdavam apenas as características paternas. [2]
Para Tomás de Aquino as palavras de Aristóteles estavam em harmonia com as palavras da bíblia, na qual está escrito que as mulheres foram criadas a partir da costela do homem. No entanto, Tomás de Aquino considerava a alma das mulheres tão valorosa quanto a alma masculina e que no céu a separação entre os sexos cessa. Para Hegel a altercação existente entre um homem e uma mulher é igual a que há entre um animal e uma planta, sendo que o animal se identifica mais com o jeito do homem e a planta se molda mais conforme o aspecto da mulher, pois seu progresso é mais pacato, deixando-se levar mais pelo sentimentalismo. Assim, se as mulheresestiverem no comando o Estado corre perigo pois, segundo o ideário hegeliano, elas não atuam de acordo com as exigências do agrupamento de pessoas que estão governando e sim conforme seu estado de espírito.
Divergindo, Platão afirmava que as mulheres seriam tão capazes de liderar o estado quanto os homens, bastando apenas que recebam a mesma educação e sejam dispensadas dos afazeres domésticos. Acreditava que a educação infantil deveria ser responsabilidade do estado. Ele diz que um estado que não promove suas mulheres é como um homem que exercita apenas um braço.
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| Christine de Pisan |
Apesar dessas significativas participações, a imagem que prevalecia da mulher era a associada à fragilidade e à indolência. Pregava-se que as mulheres eram uma criação inferior de Deus, como uma armadilha para que os homens pecassem. E associadas a esses tributos endemoniados as mulheres foram perseguidas e limitadas durante séculos, uma Caça às Bruxas que perdura, infelizmente.
O século XVIII marcado pelo Iluminismo, que prega a individualidade e a autonomia aos seres humanos. Não considerou como ser humano a mulher, pois seus pensadores: Condillac, Voltaire, Locke, Montesquieu, Kant e Rousseau percebiam as mulheres como dotadas de uma razão inferior e até irracionais. A revolução Francesa, de 1789 a 1793, com seus ideais de Liberté, Egalité e Fraternité, obteve em 1791 a participação de Olympe de Gouges que publicou a Declaração dos Direitos das Mulheres e da Cidadã, proclamando que as mulheres possuem direitos assim como os homens e devem estar inseridas na vida política em condição de igualdade. Não obstante, infelizmente, Olympe de Gouges foi guilhotinada em 3 de novembro de 1793 e as mulheres foram acusadas contra a revolução. A primeira constituição francesa, de 1807, coloca a mulher sob a tutela do marido.
No século XIX, o feminismo emancipacionista é impulsionado e se consolida o sistema capitalista. A inferioridade se expande às diferenças salariais gritantes. O argumento utilizado para justificar foi o mesmo utilizado em 1981 pelo Paulo Maluf, ao enfrentar uma greve de professoras de escolas públicas de São Paulo por melhores salários ele disse: “elas não ganhavam mal, mas eram malcasadas”. Acreditava-se e alguns ainda acreditam que a mulher deveria ter um homem que a sustentasse.
Com tanta exploração, as líderes operárias Jeanne Deroin e Flora Tristan defendiam a luta pelos direitos das mulheres e da classe trabalhadora. Jeanne Deroin elaborou um projeto de União das Associações dos Trabalhadores, que deu origem aos sindicatos trabalhistas, para não correrem o risco de desmoralizar o movimento operário por ter uma mulher como líder a autoria do projeto foi ocultada e Jeanne com outros companheiros foi presa. Homens e mulheres participaram da luta e foram vítimas de repressão. No entanto, Jeanne foi defraudada. E ainda hoje uma das lutas do feminismo é o salário igual pelo mesmo trabalho, porém, é bom que se questione: defender a igualdade no mercado de trabalho não é criticar a exploração capitalista de trabalho, e sim mantê-la, fazendo com que as mulheres tenham igual direito de serem exploradas e de realizarem trabalhos alienados.
Em 1871 surge o movimento feminista que se estende até fins da 2º Guerra Mundial e coloca em tona um debate entre o Marxismo: defendia que a emancipação dependia da contradição mulher-sociedade e entre o feminismo que defendia a contradição homem-mulher. É com o feminismo reformista que surgem as sufragistas. Os marxistas consideravam o movimento de caráter reformista burguês. Porém, mesmo vistas como burguesas para socialistas e perigosas para católicos, foram vencidas politicamente.
O capitalismo contemporâneo deu ao feminismo diversas vertentes. Andrée Michel em seu livro “O Feminismo” afirma que as diferenças entre o sexo masculino e feminino não são provenientes da natureza e sim da educação diferenciada proporcionada a ambos os sexos; a ampliação das lutas feministas e sua vinculação a todas as necessidades da sociedade, etc.
O período que precede a 1º Guerra Mundial abriu à mulher novos espaços. O direito ao voto foi conquistado em 21 países. Iniciando-se então a defesa dos direitos das trabalhadoras: a igualdade das condições de trabalho, o direito dos filhos ilegítimos. Enquanto as feministas do ocidente da europa lutavam pelos direitos econômicos, políticos e civis, as mulheres russas acreditavam que a revolução de 1917 lhes daria todos esses direitos. Os primeiros decretos da revolução Bolchevista atenderam em grande parte as reinvindicações femininas: seguro doença; proibição de demissão de mulheres grávidas; divórcio facilitado, etc. Porém, terminada a guerra civil, pouco a pouco as mulheres foram perdendo seus direitos.
Em 1939 eclodiu a 2º Guerra Mundial e a mulher tomou lugar a espaços, trabalhos antes tidos como masculinos. Muitas delas também foram presas e torturadas em resistência ao fascismo. Terminada a guerra em 1945, as mulheres participam da redemocratização de seus países. Em 1949, Simone de Beauvoir, escreve “O Segundo Sexo”, o qual assinala o aparecimento do feminismo radical contemporâneo. A autora denuncia as raízes culturais da desigualdade sexual, descrevendo as causas culturais. Segundo Simone, “as mulheres sempre foram marginalizadas porque os homens de todas as classes e partidos sempre lhes negaram uma existência autônoma”. Acusa a burguesia de ter mantido e acentuado a opressão feminina. Para ela a “opressão da mulher está inscrita na origem dos tempos” e “o proletariado pode mudar de classe, a mulher não pode mudar de sexo”. Daí a singularidade das lutas da mulher. Pois a mesma relação patriarcal existente no Afegão, não é a mesma do Brasil.
Em 1963, Betty Friedman publica “A Mística da Feminilidade” no qual são explicadas as novas características da opressão. Em casa a mulher realiza um trabalho não retribuído, alienante e desempenha como compradora uma importante função. O livro provocou uma ação de encontros e desencontros, produzindo teorias e dando maior amplitude.
Em 1970, Kate Millet descobriu no patriarcado a base de todo poder e em seu livro “A política dos sexos” expos suas ideias. Sulamita Fierestone, em “A Dialética dos Sexos” prevê uma revolução feminista que seja capaz de modificar a organização da própria natureza. Colocando em pauta a relação entre marxismo e feminismo. O movimento se consolida em torno de outros assuntos como o aborto, o divórcio.
Há pelo menos duas teorias feministas que procuram superar as limitações dos conceitos fundamentais sem no entanto abandona-los totalmente. Uma é o feminismo socialista que parte do referencial teórico marxista para analisar a base material da dominação masculina e a outra é o feminismo negro.
O movimento feminista socialista propôs alternativas para intersecção de raça, gênero, orientação sexual e classe social. A corrente feminista socialista alcançou maior intensidade na Alemanha, graças à atuação de Clara Zetkin e Rosa Luxemburgo. Essa corrente surge depois da publicação do Manifesto Comunista por Marx e Engels. A questão da opressão feminina era vista como consequência do surgimento da propriedade privada e a incorporação da mulher na produção social que criaria as bases para a libertação.
Para o feminismo negro é necessário compreender que a experiência da opressão sexista é dada pela posição que ocupamos numa matriz de dominação onde raça, gênero e classe social interceptam-se em diferentes pontos. Assim uma mulher negra experimenta a opressão a partir de um lugar que proporciona um ponto de vista diferente sobre o que é ser mulher numa sociedade desigual, racista e sexista. Raça, gênero, classe social, orientação sexual reconfiguram-se mutuamente formando o que Grant chama de um mosaico que só pode ser entendido em sua multidimensionalidade. De acordo com o ponto de vista feminista, portanto, não existe uma identidade, pois a experiência de ser mulher se dá de forma social e historicamente determinada.
O Uso do conceito “mulher” carrega diversos signos reforçando estereótipos. O que define uma mulher? “Existiriam traços comuns entre as “mulheres”, preexistentes a sua opressão, ou estariam as “mulheres” ligadas em virtude somente de sua opressão?” [3]Um ponto de contestação que causa ansiedade, mas é daí que se estabelece as relações de gênero. Nosso gênero é constituído e representado de maneira diferente segundo nossa localização dentro de relações globais de poder. É agora axiomático na teoria e prática feministas que “mulher” não é uma categoria unitária. O signo “mulher” tem sua própria especificidade constituída dentro e através de configurações historicamente específicas de relações de gênero. Seu fluxo semiótico assume significados específicos em discursos de diferentes “feminilidades” no qual vem a simbolizar trajetórias, circunstâncias materiais e experiências culturais históricas particulares.
Bell Hooks, destacada feminista afro-americana afirma que o que as mulheres compartilham não a mesma opressão, mas a luta para acabar com o sexismo, ou seja, pelo fim das relações baseadas em diferenças de gênero socialmente construídas. Para os negros é necessário enfrentar esta questão não apenas porque a dominação patriarcal conforma relações de poder, mas também porque o patriarcado repousa em bases ideológicas semelhantes às que permitem a existência do racismo a crença na dominação construída com base em noções de inferioridade e superioridades. Nesse sentido a frase “o pessoal é político” para Hooks não significa como muitos ainda a interpretam a primazia de uma dimensão sobre a outra mas a compreensão de que o pessoal pode constituir-se em ponto de partida para a conexão entre politização e transformação da consciência. Logo não se trata de uma simples descrição da experiência de opressão de mulheres por homens mas do entendimento crítico sobre o terreno de onde essa realidade emerge.
Outra vertente é o ecofeminismo, a qual batalha por um novo tipo de desenvolvimento que proporcione uma melhor qualidade de vida ao ser humano. Essa nova corrente de pensamento e prática nasce como preocupação pela natureza entendida de duas formas: como natureza interna (nossos próprios corpos) e como natureza externa (o meio ambiente e os seres vivos não humanos). Dentro da corrente ecofeminista, a figura mais conhecida como ativista política é Vandana Shiva.
A partir dessa amplitude de feminismos, é perceptível a experiência fragmentada e a análise de contextos diversos para se definir e constituir um movimento. Após êxitos e descobertas, a ascensão da participação da mulher na história; O feminismo se recria sob diversas perspectivas. A descriminalização do aborto, a violência doméstica são temas cada vez mais discutidos. Com a distribuição de adesivos e panfletos com a frase “Não é não!”, os avisos nos trens de que abuso sexual é crime e as diversas manifestações; nos fazem acreditar na conscientização da população e de um reconhecimento do próprio corpo como matéria política de empoderamento.
Com a ascensão das redes sociais e a potência de compartilhamento, é observável a rede de discussões e divulgações do movimento, indo desde textos que explicam o feminismo até divulgações de eventos.
O surgimento de denominações como: manterrupting , homens que interrompem; bropriating, quando um homem se apropria de uma ideia já expressa por uma mulher; mansplaining, quando um homem se dedica a explicar algo óbvio de maneira didática para uma mulher, como se ela fosse incapaz de compreender e gaslighting, derivado do termo inglês gaslight, termo utilizado quando a mulher é induzida a acreditar que está louca, a duvidar do seu senso de raciocínio, memória e sanidade. Esses termos nomeam padrões fortemente existentes na sociedade e sinalizam comportamentos machistas recorrentes no cotidiano.
Ao mesmo tempo em que as diversas vertentes abrangem os tipos de olhares sobre o feminismo essas mesmas vertentes os dividem. Tornando o discurso feminista um discurso controverso, no qual já não se sabe mais quem ou o que se ataca, campo minado, onde as ações se transformam em simbologias e palavras. Esquecendo-se dos atos que confirmariam o feminismo. Exibição de subjetividades e um mero contentamento com palavras jogadas ao vento.
Portanto, a esperança de que esse momento de revitalização e localização possam ser enriquecedores alimenta a esperança. E ao analisar a posição das mulheres a pouco tempo atrás e o como transgredimos hoje; ao entrar numa sala com maioria mulheres e pensar nas avós e bisas que foram humilhadas, que não puderam estudar, não puderam ter profissão pelo fato de ser mulher e de tudo que o ser mulher carrega junto de si imposto socialmente. Antonia representa a harmonia e o equilíbrio como consequência da desconstrução patriarcal; e representa a construção da instituição família de maneira quase utópica. Quase por que a luta feminista continua.
Bibliografia:
Beauvoir, Simone. O Segundo Sexo. 3º ed. Rio de Janeiro: Nova fronteira,2016
Alambert, Zuleika. Mulher uma trajetória épica. São Paulo 1997: Imprensa Oficial do Estado S. A. IMESP
Butler, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. 3º ed.- Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.
Chaui, Marilena. O que é ideologia? São Paulo: Brasiliense, 2006
Gaarder, Jostein. O mundo de Sofia: romance da história da filosofia. 1º ed- São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
Auad, Daniela. Feminismo: que história é essa? - Rio de Janeiro: DP&A,2003.
Brandão, Margarida e Bingermer, Maria. Mulher e Relações de Gênero. Edições Loyola, São Paulo, 1994
Cap. 9 Sobre a Mulher em Aristóteles. Ramiro Marques http://www.eses.pt/usr/ramiro/docs/etica_pedagogia/e_book_ensaios_aristoteles/Cap%209%20Sobre%20a%20mulher%20em%20Arist%C3%B3teles.pdf
Filosofia e gênero: da memória do passado ao projeto de futuro. Alicia H. Puleo http://www5.uva.es/catedraestudiosgenero/IMG/pdf/filosofia_e_genero.pdf
Nossos Feminismos Revisitados. Luiza Bairros https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/viewFile/16462/15034
Diferença, diversidade, diferenciação. Avtar Brah https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/3482/brah%20diferenca%20diversidade.pdf?sequence=1


