segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Resenha: Preconceito Linguístico: o que é, como se faz

Livro

Preconceito Linguístico: o que é, como se faz


Marcos Bagno, reconhecido pela sua destreza ao falar da língua portuguesa, possui 34 livros publicados, entre eles livros juvenis, infantis e de contos; tendo ganhado os prêmios: Nestlé de Literatura Brasileira em 1988; Jabuti em 2012 e o prêmio Literário da Fundação Biblioteca Nacional em 2013. Doutor em Filologia e Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo. Assume como tema recorrente de suas obras a utilização de variantes da língua e o preconceito.

No livro “Preconceito Linguístico” Marcos Bagno assume a posição de quebrar estigmas e investiga as inferências socioculturais do conceito norma culta, sobretudo nas escolas brasileiras. Logo na introdução Bagno afirma tratar a língua como um tema político, não desconectando a língua das pessoas que a utilizam no cotidiano, sendo assim um objeto de estudo que sempre está em alteração.

O livro possui diversas edições, pois Bagno se preocupa em trazer novas informações, o que torna o livro especial, além do cuidado de sempre atualiza-lo, são os exemplos tão evidentes no dia a dia; desmistifica, assim, diversos mitos presentes na sociedade brasileira. Como também explicita a história por trás da foto escolhida na capa e utiliza as vivências em aulas, palestras, ou até mesmo cartas que o autor respondeu à revista Veja em seu livro, aproximando o leitor de sua obra.

A edição utilizada aqui, é a edição de 2007 pela editora Loyola. Bagno recusa a noção simplista de “certo” e “errado” e inicia o primeiro capítulo desmistificando os mitos que assombram a língua portuguesa.

O primeiro mito é o de que a língua portuguesa é homogênea. A afirmação de que exista uma unidade linguística no Brasil implica em imposição da norma culta nas escolas como se ela fosse, de fato, a língua falada por milhões de brasileiros. Bagno ressalta como exemplo desse mito a linguagem utilizada na constituição e por órgãos públicos, que distancia uma grande parcela da população falante das variedades desprestigiadas dos serviços públicos. Nesse primeiro mito utiliza de autores como Maurizzio Gnerre, Darcy Ribeiro, Stella Maris Bortoni-Ricardo expondo trechos de pesquisas e obras para complementar sua obra ou, como faz com Darcy Ribeiro, para exemplificar a obstinação do preconceito em nossa cultura.

A opinião de que apenas em Portugal se fala o português corretamente, é o segundo mito do livro. Essa ideologia impregnada, revela o complexo de inferioridade resultante da colonização do Brasil por Portugal.  O autor analisa os contextos históricos e explica as origens desse julgamento, tratando as línguas apenas como diferentes, e não melhor ou pior, certa ou errada.
A partir disto, o terceiro mito: português é difícil. Com o ensino da língua baseado na norma gramatical de Portugal, as regras que aprendemos não correspondem à que falamos e escrevemos no Brasil, nos fazendo decorar regras que não se aplicam a realidade.

Os fenômenos fonéticos, que contribuíram para a formação da língua, quando considerados errados não se deve apenas a uma questão linguística, mas sim a uma questão social e política. Pois, o rotacismo é um fenômeno existente na língua padrão e na língua não-padrão, no entanto são considerados errados quando ocasionados por parcelas desprestigiadas da sociedade. Configura-se, assim, o quarto mito: “As pessoas sem instrução falam tudo errado.”

“O lugar onde melhor se fala o português no Brasil é o Maranhão” - no Maranhão utiliza-se com regularidade o pronome tu e somente devido a esse arcaísmo que se aproxima das variações literárias e da língua utilizada em Portugal é que se mantém a concepção de que no Maranhão é falado o português da melhor forma. Neste quinto mito, Bagno abona a atribuição a um lugar ou comunidade de falantes melhores ou piores e ressalta o respeito que se deve ter com todas as variedades da língua.

A supervalorização da língua escrita, resulta no repúdio das diferentes formas de falar a língua, assim torna-se o sexto mito de que “o certo é falar assim por que se escreve assim”. A forma escrita é uma representação gráfica, pictórica e convencional da língua falada, portanto não existe nenhuma ortografia que consiga reproduzir a fala.

O mito de que é preciso ensinar gramática para aprimorar o desempenho na fala e na escrita, se invalida, segundo o autor, pelo fato de que se fosse verdade todo gramático escreveria bem e todo escritor seria especialista em gramática, e também pelo fato de que a gramática normativa surgiu como decorrente da língua, porém a inversão dessa concepção coloca a gramática como um instrumento de poder e controle.

E, fechando o primeiro capítulo do circuito mitológico, o último e oitavo mito coloca a dominação da norma culta como um instrumento de ascensão social. É preciso garantir o ensino da norma culta à todos os brasileiros, sem o julgamento de valor, mas também é preciso garantir o acesso à educação no seu sentido mais amplo como também à diversos outros serviços.

Os mitos anteriores examinados pelo autor, são no segundo capítulo do livro, colocados em um mecanismo que o autor chama de “Círculo Vicioso do Preconceito Linguístico” constituído pela gramática tradicional que inspira a prática de ensino e estimula a produção de livros didáticos. E por um quarto elemento chamado pelo autor de comandos paragramaticais, concebidos pelos arsenais de produtos (multi)midiáticos que possuem como objetivo “ajudar” quem tem dúvida na hora de falar ou escrever, porém tais conteúdos estão espessos de preconceito. Marcos Bagno faz uma análise dos comandos paragramaticais, recorrendo aos exemplos do Professor Napoleão Mendes de Almeida, do Luiz Antônio Sacconi e Dad Squasari, os quais são autores que utilizaram meios midiáticos com a proposta de auxiliar no uso das regras da gramática normativa, recorrendo-se de afirmações preconceituosas para justificar tais normas.

Para desconstruir o “Círculo Vicioso do Preconceito Linguístico”, no terceiro capítulo, nomeado “A Desconstrução do Preconceito Linguístico”, Marcos Bagno convida o leitor a reconhecer a crise existente no ensino da língua portuguesa e especula uma gramática da norma culta brasileira, que seja prática e útil aos falantes da língua em geral, com objetivos didáticos pedagógicos claros.

Porém, enquanto essa gramática não chega, o autor expõe a necessidade de combater o preconceito linguístico no subcapítulo intitulado “Mudança de Atitude”, no qualincentiva o leitor a recusar atitudes que visem menosprezar o saber linguístico individual e acionar o senso crítico sempre que se deparar com um comando paragramatical. Também sugere aos professores a reflexão do próprio objeto de trabalho: a norma culta. E a colocação do professor de língua numa posição crítica, o qual deva produzir seus conhecimentos da gramática, transformando-se em um pesquisador.

Outra questão levantada no terceiro subcapítulo é: “O que é ensinar português?” inserida no capítulo dois do livro, onde Marcos Bagno afirma que o conhecimento dos nomes das classes de palavras, as definições de orações, os termos das orações etc. não garante que o aluno seja um competente usuário da língua culta. Quando interrogado sobre a utilização da nomenclatura tradicional, das definições e análises que devem ser cobradas no vestibular, Marcos Bagno sugere a organização de profissionais da área educacional, mobilização para que as provas de concursos sejam elaboradas de outra maneira.

Adicional ao modo de romper com o círculo vicioso do preconceito linguístico é reavaliar a noção de erro. Muitas das vezes os “erros” de português são confundidos com “erros” de ortografia. No quarto subcapítulo Bagno exemplifica tais “erros” e no quinto traz o questionamento “Então Vale Tudo?”, no qual consolida o papel do professor de conscientizar o aluno a se adequar a diversas situações de uso da língua, promovendo o equilíbrio entre os eixos: aceitabilidade e adequabilidade.

A preocupação do professor com a forma e não com o conteúdo produzido em um texto do aluno, é a indagação que o autor traz no sexto subcapítulo intitulado “A Paranóia Ortográfica” o que são vistos como erros são meros erros ortográficos e a ortografia não faz parte da gramatica da língua. A preocupação deve se restringir primeiramente ao que o aluno quer comunicar e depois a correção com a ortografia, que se faz principalmente com o contato íntimo e frequente com textos bem escritos. Logo, deve-se atentar as ideias dos alunos e estimula-los a produção e leitura de textos, consequentemente as correções ortográficas virão.

Concluindo o terceiro capítulo, Bagno sintetiza posturas que devem ser adotadas para subverter o preconceito. Dá exemplos de comentários que possam ser feitos para rebater, por exemplo, o questionamento das escolas, diretores e pais que, em geral, ainda creem no ensino de uma gramática tradicional.

O quarto capítulo do livro, intitulado “O Preconceito Contra a Linguística e os Linguistas”, nos levanta diversas questões a respeito da posição dos linguistas sobre a língua e seu importante papel social. O discurso gramatical tradicional já tão criticado pelos linguistas continua tendo seu vigor. Por que? Como Bagno, nos incita: “A quem interessa defender o “português ortodoxo” de uns pouquíssimos “melhores” contra a suposta “heresia gramatical” de muitos milhões de outros?”

A democratização da língua reflete no tipo de sociedade em que estamos inseridos e a atualização da língua e da linguística como ciência se torna essencial em tempos em que pessoas são caladas por não saberem “corretamente” o português. No anexo inserido ao final do livro com a carta de Bagno à revista veja, fica explicito o desmazelo das mídias com os estudos linguísticos e, também a indignação de Marcos Bagno, que como pesquisador coloca-se com clamor, lutando pela democratização da língua.

O livro “Preconceito linguístico: o que é, como se faz” coloca o leitor fora da sua posição de conforto, incitando ao debate e atitudes que podem cooperar para a decaída de estereótipos. Um livro que acrescenta na formação, não apenas de estudantes de Letras ou Jornalismo, mas também coopera na formação do sujeito social, levando o leitor ao posicionamento crítico da utilização e ensino da sua própria língua.

BAGNO, M. Preconceito Linguístico: o que é, como se faz. 52 ed. São Paulo: Edições Loyola, 2009. 207 p. 

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