segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Uma pequena análise do feminismo na história da filosofia tendo como inspiração o filme: A Excêntrica Família de Antonia de Marleen Gorris






A filosofia sempre se apresentou como um movimento sem gênero, neutro, universal. E quando falamos de gênero nos referimos a uma construção sócio histórica das identidades masculina e feminina. Existem diversas legitimações representando a desigualdade entre os gêneros, começando pela mitologia, com Pandora, a primeira mulher criada para agradar os homens e responsável por haver desencadeado todo tipo de desgraça. E também, na tradição judaico-cristã, é possível perceber a colocação da mulher no âmbito da culpa, na tentativa de justificar as condutas como próprias do sexo, onde a mulher tem posição inferior, como pode ser exemplificado com este trecho da bíblia: “Então o Senhor Deus fez o homem cair em profundo sono e, enquanto este dormia, tirou-lhe uma das costelas, fechando o lugar com carne. Com a costela que havia tirado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher e a levou até ele. Disse então o homem:’ Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada mulher, porque do homem foi tirada’.” Gênesis 2:21-23.  
E não somente os mitos e as religiões possuem discursos misóginos, também na filosofia, como, para Pitágoras[1], a mulher era vista como um ser que surgiu das trevas; Aristóteles considerava a mulher como um homem não completo, passiva e receptora. Acreditava que os homens eram ativos e provedores e que as crianças herdavam apenas as características paternas. [2]
Para Tomás de Aquino as palavras de Aristóteles estavam em harmonia com as palavras da bíblia, na qual está escrito que as mulheres foram criadas a partir da costela do homem. No entanto, Tomás de Aquino considerava a alma das mulheres tão valorosa quanto a alma masculina e que no céu a separação entre os sexos cessa. Para Hegel a altercação existente entre um homem e uma mulher é igual a que há entre um animal e uma planta, sendo que o animal se identifica mais com o jeito do homem e a planta se molda mais conforme o aspecto da mulher, pois seu progresso é mais pacato, deixando-se levar mais pelo sentimentalismo. Assim, se as mulheresestiverem no comando o Estado corre perigo pois, segundo o ideário hegeliano, elas não atuam de acordo com as exigências do agrupamento de pessoas que estão governando e sim conforme seu estado de espírito.
Divergindo, Platão afirmava que as mulheres seriam tão capazes de liderar o estado quanto os homens, bastando apenas que recebam a mesma educação e sejam dispensadas dos afazeres domésticos. Acreditava que a educação infantil deveria ser responsabilidade do estado. Ele diz que um estado que não promove suas mulheres é como um homem que exercita apenas um braço.
Christine de Pisan
Na Idade Média a filosofia era dominada por homens, mas isso não significa que não existiram pensadoras mulheres. Hildegard von Bingen, mesmo sendo mulher exerceu os ofícios de oradora, escritora, médica, botânica. Na Itália, no século XVII, três mulheres despontaram como percursoras do feminismo. Moderata Fonte, em 1600, publicou “Valor da Mulher”, expondo a situação das donas de casa que viviam como “animais encurralados entre paredes”. Lucrécia Marinelli, em 1601, escreveu “A Nobreza e a Excelência da Mulher”, defendo a igualdade entre os sexos. Arcângela   Tarabotti entre 1620 e 1652(ano de sua morte) escreveu cartas e textos que denunciavam a inferioridade da mulher e o moralismo presente. No final da Idade Média, Christine de Pisan, escreveu “Cidade das Mulheres” obra na qual defende a igualdade entre homens e mulheres e uma igual educação para ambos.
Apesar dessas significativas participações, a imagem que prevalecia da mulher era a associada à fragilidade e à indolência. Pregava-se que as mulheres eram uma criação inferior de Deus, como uma armadilha para que os homens pecassem. E associadas a esses tributos endemoniados as mulheres foram perseguidas e limitadas durante séculos, uma Caça às Bruxas que perdura, infelizmente.
O século XVIII marcado pelo Iluminismo, que prega a individualidade e a autonomia aos seres humanos.  Não considerou como ser humano a mulher, pois seus pensadores: Condillac, Voltaire, Locke, Montesquieu, Kant e Rousseau percebiam as mulheres como dotadas de uma razão inferior e até irracionais. A revolução Francesa, de 1789 a 1793, com seus ideais de Liberté, Egalité e Fraternité, obteve em 1791 a participação de Olympe de Gouges que publicou a Declaração dos Direitos das Mulheres e da Cidadã, proclamando que as mulheres possuem direitos assim como os homens e devem estar inseridas na vida política em condição de igualdade. Não obstante, infelizmente, Olympe de Gouges foi guilhotinada em 3 de novembro de 1793 e as mulheres foram acusadas contra a revolução. A primeira constituição francesa, de 1807, coloca a mulher sob a tutela do marido.
No século XIX, o feminismo emancipacionista é impulsionado e se consolida o sistema capitalista. A inferioridade se expande às diferenças salariais gritantes. O argumento utilizado para justificar foi o mesmo utilizado em 1981 pelo Paulo Maluf, ao enfrentar uma greve de professoras de escolas públicas de São Paulo por melhores salários ele disse: “elas não ganhavam mal, mas eram malcasadas”.  Acreditava-se e alguns ainda acreditam que a mulher deveria ter um homem que a sustentasse.
Com tanta exploração, as líderes operárias Jeanne Deroin e Flora Tristan defendiam a luta pelos direitos das mulheres e da classe trabalhadora. Jeanne Deroin elaborou um projeto de União das Associações dos Trabalhadores, que deu origem aos sindicatos trabalhistas, para não correrem o risco de desmoralizar o movimento operário por ter uma mulher como líder a autoria do projeto foi ocultada e Jeanne com outros companheiros foi presa. Homens e mulheres participaram da luta e foram vítimas de repressão. No entanto, Jeanne foi defraudada. E ainda hoje uma das lutas do feminismo é o salário igual pelo mesmo trabalho, porém, é bom que se questione: defender a igualdade no mercado de trabalho não é criticar a exploração capitalista de trabalho, e sim mantê-la, fazendo com que as mulheres tenham igual direito de serem exploradas e de realizarem trabalhos alienados.
Em 1871 surge o movimento feminista que se estende até fins da 2º Guerra Mundial e coloca em tona um debate entre o Marxismo: defendia que a emancipação dependia da contradição mulher-sociedade e entre o feminismo que defendia a contradição homem-mulher. É com o feminismo reformista que surgem as sufragistas. Os marxistas consideravam o movimento de caráter reformista burguês. Porém, mesmo vistas como burguesas para socialistas e perigosas para católicos, foram vencidas politicamente.
O capitalismo contemporâneo deu ao feminismo diversas vertentes. Andrée   Michel em seu livro “O Feminismo” afirma que as diferenças entre o sexo masculino e feminino não são provenientes da natureza e sim da educação diferenciada proporcionada a ambos os sexos; a ampliação das lutas feministas e sua vinculação a todas as necessidades da sociedade, etc.
O período que precede a 1º Guerra Mundial abriu à mulher novos espaços. O direito ao voto foi conquistado em 21 países. Iniciando-se então a defesa dos direitos das trabalhadoras: a igualdade das condições de trabalho, o direito dos filhos ilegítimos. Enquanto as feministas do ocidente da europa lutavam pelos direitos econômicos, políticos e civis, as mulheres russas acreditavam que a revolução de 1917 lhes daria todos esses direitos. Os primeiros decretos da revolução Bolchevista atenderam em grande parte as reinvindicações femininas: seguro doença; proibição de demissão de mulheres grávidas; divórcio facilitado, etc. Porém, terminada a guerra civil, pouco a pouco as mulheres foram perdendo seus direitos.
Em 1939 eclodiu a 2º Guerra Mundial e a mulher tomou lugar a espaços, trabalhos antes tidos como masculinos. Muitas delas também foram presas e torturadas em resistência ao fascismo. Terminada a guerra em 1945, as mulheres participam da redemocratização de seus países. Em 1949, Simone de Beauvoir, escreve “O Segundo Sexo”, o qual assinala o aparecimento do feminismo radical contemporâneo.  A autora denuncia as raízes culturais da desigualdade sexual, descrevendo as causas culturais. Segundo Simone, “as mulheres sempre foram marginalizadas porque os homens de todas as classes e partidos sempre lhes negaram uma existência autônoma”. Acusa a burguesia de ter mantido e acentuado a opressão feminina. Para ela a “opressão da mulher está inscrita na origem dos tempos” e “o proletariado pode mudar de classe, a mulher não pode mudar de sexo”. Daí a singularidade das lutas da mulher. Pois a mesma relação patriarcal existente no Afegão, não é a mesma do Brasil.
Em 1963, Betty Friedman publica “A Mística da Feminilidade” no qual são explicadas as novas características da opressão. Em casa a mulher realiza um trabalho não retribuído, alienante e desempenha como compradora uma importante função. O livro provocou uma ação de encontros e desencontros, produzindo teorias e dando maior amplitude.
Em 1970, Kate Millet descobriu no patriarcado a base de todo poder e em seu livro “A política dos sexos” expos suas ideias. Sulamita Fierestone, em “A Dialética dos Sexos” prevê uma revolução feminista que seja capaz de modificar a organização da própria natureza. Colocando em pauta a relação entre marxismo e feminismo. O movimento se consolida em torno de outros assuntos como o aborto, o divórcio.
Há pelo menos duas teorias feministas que procuram superar as limitações dos conceitos fundamentais sem no entanto abandona-los totalmente. Uma é o feminismo socialista que parte do referencial teórico marxista para analisar a base material da dominação masculina e a outra é o feminismo negro.
O movimento feminista socialista propôs alternativas para intersecção de raça, gênero, orientação sexual e classe social. A corrente feminista socialista alcançou maior intensidade na Alemanha, graças à atuação de Clara Zetkin e Rosa Luxemburgo. Essa corrente surge depois da publicação do Manifesto Comunista por Marx e Engels. A questão da opressão feminina era vista como consequência do surgimento da propriedade privada e a incorporação da mulher na produção social que criaria as bases para a libertação.
Para o feminismo negro é necessário compreender que a experiência da opressão sexista é dada pela posição que ocupamos numa matriz de dominação onde raça, gênero e classe social interceptam-se em diferentes pontos. Assim uma mulher negra experimenta a opressão a partir de um lugar que proporciona um ponto de vista diferente sobre o que é ser mulher numa sociedade desigual, racista e sexista. Raça, gênero, classe social, orientação sexual reconfiguram-se mutuamente formando o que Grant chama de um mosaico que só pode ser entendido em sua multidimensionalidade. De acordo com o ponto de vista feminista, portanto, não existe uma identidade, pois a experiência de ser mulher se dá de forma social e historicamente determinada.
 O Uso do conceito “mulher” carrega diversos signos reforçando estereótipos. O que define uma mulher?  “Existiriam traços comuns entre as “mulheres”, preexistentes a sua opressão, ou estariam as “mulheres” ligadas em virtude somente de sua opressão?” [3]Um ponto de contestação que causa ansiedade, mas é daí que se estabelece as relações de gênero. Nosso gênero é constituído e representado de maneira diferente segundo nossa localização dentro de relações globais de poder. É agora axiomático na teoria e prática feministas que “mulher” não é uma categoria unitária. O signo “mulher” tem sua própria especificidade constituída dentro e através de configurações historicamente específicas de relações de gênero. Seu fluxo semiótico assume significados específicos em discursos de diferentes “feminilidades” no qual vem a simbolizar trajetórias, circunstâncias materiais e experiências culturais históricas particulares.
Bell Hooks, destacada feminista afro-americana afirma que o que as mulheres compartilham não a mesma opressão, mas a luta para acabar com o sexismo, ou seja, pelo fim das relações baseadas em diferenças de gênero socialmente construídas.  Para os negros é necessário enfrentar esta questão não apenas porque a dominação patriarcal conforma relações de poder, mas também porque o patriarcado repousa em bases ideológicas semelhantes às que permitem a existência do racismo a crença na dominação construída com base em noções de inferioridade e superioridades. Nesse sentido a frase “o pessoal é político” para Hooks não significa como muitos ainda a interpretam a primazia de uma dimensão sobre a outra mas a compreensão de que o pessoal pode constituir-se em ponto de partida para a conexão entre politização e transformação da consciência. Logo não se trata de uma simples descrição da experiência de opressão de mulheres por homens mas do entendimento crítico sobre o terreno de onde essa realidade emerge.
Outra vertente é o ecofeminismo, a qual batalha por um novo tipo de desenvolvimento que proporcione uma melhor qualidade de vida ao ser humano. Essa nova corrente de pensamento e prática nasce como preocupação pela natureza entendida de duas formas: como natureza interna (nossos próprios corpos) e como natureza externa (o meio ambiente e os seres vivos não humanos). Dentro da corrente ecofeminista, a figura mais conhecida como ativista política é Vandana Shiva.
A partir dessa amplitude de feminismos, é perceptível a experiência fragmentada e a análise de contextos diversos para se definir e constituir um movimento. Após êxitos e descobertas, a ascensão da participação da mulher na história; O feminismo se recria sob diversas perspectivas. A descriminalização do aborto, a violência doméstica são temas cada vez mais discutidos. Com a distribuição de adesivos e panfletos com a frase “Não é não!”, os avisos nos trens de que abuso sexual é crime e as diversas manifestações; nos fazem acreditar na conscientização da população e de um reconhecimento do próprio corpo como matéria política de empoderamento.
Com a ascensão das redes sociais e a potência de compartilhamento, é observável a rede de discussões e divulgações do movimento, indo desde textos que explicam o feminismo até divulgações de eventos.
O surgimento de denominações como: manterrupting , homens que interrompembropriating, quando um homem se apropria de uma ideia já expressa por uma mulher; mansplaining, quando um homem se dedica a explicar algo óbvio de maneira didática para uma mulher, como se ela fosse incapaz de compreender e gaslighting, derivado do termo inglês gaslight, termo utilizado quando a mulher é induzida a acreditar que está louca, a duvidar do seu senso de raciocínio, memória e sanidade. Esses termos nomeam padrões fortemente existentes na sociedade e sinalizam comportamentos machistas recorrentes no cotidiano. 
Ao mesmo tempo em que as diversas vertentes abrangem os tipos de olhares sobre o feminismo essas mesmas vertentes os dividem. Tornando o discurso feminista um discurso controverso, no qual já não se sabe mais quem ou o que se ataca, campo minado, onde as ações se transformam em simbologias e palavras. Esquecendo-se dos atos que confirmariam o feminismo. Exibição de subjetividades e um mero contentamento com palavras jogadas ao vento.
Portanto, a esperança de que esse momento de revitalização e localização possam ser enriquecedores alimenta a esperança. E ao analisar a posição das mulheres a pouco tempo atrás e o como transgredimos hoje; ao entrar numa sala com maioria mulheres e pensar nas avós e bisas que foram humilhadas, que não puderam estudar, não puderam ter profissão pelo fato de ser mulher e de tudo que o ser mulher carrega junto de si imposto socialmente. Antonia representa a harmonia e o equilíbrio como consequência da desconstrução patriarcal; e representa a construção da instituição família de maneira quase utópica. Quase por que a luta feminista continua.
Bibliografia:
Beauvoir, Simone. O Segundo Sexo. 3º ed. Rio de Janeiro: Nova fronteira,2016
Alambert, Zuleika. Mulher uma trajetória épica. São Paulo 1997: Imprensa Oficial do Estado S. A. IMESP
Butler, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. 3º ed.- Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.
Chaui, Marilena. O que é ideologia? São Paulo: Brasiliense, 2006
Gaarder, Jostein. O mundo de Sofia: romance da história da filosofia. 1º ed- São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
Auad, Daniela. Feminismo: que história é essa? - Rio de Janeiro: DP&A,2003.
Brandão, Margarida e Bingermer, Maria. Mulher e Relações de Gênero. Edições Loyola, São Paulo, 1994
Filosofia e gênero: da memória do passado ao projeto de futuro. Alicia H. Puleo http://www5.uva.es/catedraestudiosgenero/IMG/pdf/filosofia_e_genero.pdf
Nossos Feminismos Revisitados.  Luiza Bairros https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/viewFile/16462/15034



[1] “Há um princípio bom que criou a ordem, a luz e o homem, e um princípio mau que criou o caos, as trevas e a mulher.” PITÁGORAS
[2] Os ovários dos mamíferos só foram descobertos em 1827.
[3] Judith Butler em Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade.

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