sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Ilha do Amor e Máquina do Mundo


O episódio “Ilha dos Amores” em Os Lusíadas possui singular importância, devido ao fato de narrar, não só uma passagem da viagem simbólica, mas o momento erótico em que Vênus, deusa que guiava os portugueses, marcou o encontro visto como a recompensa pela expedição. As primeiras estrofes do canto IX, apresenta o plano dos Mouros de deter na Índia os Portugueses para destruí-los. No entanto, Gama, logo regressa às naus e parte levando consigo especiarias sem que os Mouros consigam atacar os Portugueses. Com auxílio do cupido, Vênus, levou os lusitanos até as ilhas dos amores. Onde deu-se o noivado de Vasco da Gama com Tétis e a união dos navegantes com as Nereidas, configurando-se em uma passagem erótica da epopeia.
A singular relevância do episódio tornou-o como a parte proibida de Os Lusíadas. Na estrutura da epopeia, esse trecho tem a função apenas de dar um caráter utópico ao texto com a descrição de amores eróticos, mas também, possui trechos em que há relatos sobre as inversões de valores, as quais os homens amam coisas que lhes foram dadas não para serem amadas e sim usadas. Portanto, reduzir o canto IX, apenas ao trecho amoroso é excluir a relevância dos temas primeiros em que Camões expõe vícios cometidos pela humanidade. 
Outra leitura, pouco interessante para embasamentos literários são as tentativas de tentar descobrir onde se encontra a ilha, se ela é verdadeira ou não, isso torna a leitura descabida em relação à teoria literária. Para Aguiar, uma “falácia biografista” são as tentativas de descobrir geograficamente onde se encontra a ilha. Pois, a poesia durante a Idade Média, configurava em ficção, mesmo não tendo sido literatura sob os preceitos criados a partir do século XVIII.
A entrega dos navegantes às ninfas é marcada como uma recompensa e uma voz paradigmática para o desconcerto do mundo, a divinização do céu encontrado na ilha dos amores retrata o justo prêmio dado aos heróis lusitanos. Representa, na ordem do conhecimento, o grande clímax, Tétis revela que ali, na ilha dos amores, a nação portuguesa é desvendada aos segredos do mundo.
Ao subirem o monte, símbolo do esforço feito para se chegar ao conhecimento, pode se afirmar que o episódio amoroso não é só um relato afetuoso, mas também uma fuga da angústia gerada pelo desconcerto do mundo. Camões constrói figurações que clamam o presente e futuro do seu mundo. O lugar mimético da obra de Camões, revela esse artifício inventivo da construção de uma máquina, designando o engenho poético, mimético e prescritivo, marcado por regras retóricas pré-estabelecidas pelo tempo de Camões. 
Tétis, no momento em que se mostra a máquina do mundo faz no monte a descrição do universo, e coloca em evidência o desejo de expansão ultramarina, traçando o mundo português múltiplo e diverso a um só rumo alinhado à unidade de sentido. Refere-se a várias regiões da terra, inclusive menciona a América e o Brasil:


“Mas cá onde mais se alarga, ali tereis 
Parte também, co pau vermelho nota; 
De Santa Cruz o nome lhe poreis; 
Descobri-la-á a primeira vossa frota. “ (X,140)


Como o mar era tranquilo a Deusa diz que podem continuar a viagem sem perigos e ainda descreve o momento em que ocorre o naufrágio, o qual supostamente Camões deixou morrer Dinamene. Portanto, o episódio narra muitas significações, a comida e o sexo que os portugueses recebem representam a vida material antes da divinização das almas dos heróis lusitanos e a união com as ninfas possui o laço de portugal com o desejo de desbravamento e a permissão divina para isso. Ao verem a máquina, que é para Hansen, “uma síntese do mundo poético de Camões” um artifício do engenho divino, que  faz o intelecto humano sair da aspiração do ideal para o auge do conhecimento intelectual e a instituição do ser. Assim, Tétis diz e mostra o universo para Vasco da Gama, como uma visão que determina esferas que vão ao metafísico.
Na descrição da máquina há uma referência a Beatriz de Dante Alighieri, a qual o empíreo é posto como um rio de luz em A Divina Comédia. Também é possível comparar o corpo de Beatriz ao corpo das mulheres na obra de Camões. Beatriz não possui corpo, é uma mulher morta já Camões em Os Lusíadas quebra esse paradigma ao relatar o amor erótico com a presença do corpo feminino, expondo o amor carnal como sublime.
Contudo, o canto X faz apologia ao projeto imperial de Portugal, pela fé e pelas armas, retratando os feitos passados da nação e cantando os feitos futuros:


“Pera servir-vos, braço às armas feito, 
Pera cantar-vos, mente às Musas dada; 
Só me falece ser a vós aceito, 
De quem virtude deve ser prezada. 
Se me isto o Céu concede, e o vosso peito 
Dina empresa tomar de ser cantada, 
Como a pres[s]aga mente vaticina 
Olhando a vossa inclinação divina,
Ou fazendo que, mais que a de Medusa, 
A vista vossa tema o monte Atlante, 
Ou rompendo nos campos de Ampelusa.” ( X,155-156)

Bibliografia:


CAMÕES, Luís Vaz de. Os Lusíadas.
FILHO, Aires. Camões Épico. 4º ed. Agir Editora, RJ.
SILVA, Vitor. Camões: Labirintos e Fascínios. Cotovia. p. 131-143.
HANSEN, João. Poetas que pensaram o mundo. Companhia das Letras. In:A Máquina do Mundo. p. 156-197.

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